terça-feira, maio 17, 2011

mudança


...se nas mãos nasce o toque de cada encontro, que prolonga o olhar perdido da paixão, é também nas mãos vazias que se esconde a lágrima de uma rosa que secou.
Faltou a rosa, faltou o calor, faltou a entrega de uma asa a rasgar o céu de infinito e de tempo, faltou a terra a segurar a vida, a vida a segurar o sorriso por dentro e a cor de uma pétala como dantes.

"A melhor forma de fugir à tentação é deixar-se levar por ela.", Oscar Wilde
E a tentação desapareceu.
E as mãos vazias disseram adeus numa palavra de hesitação que ecoou dentro dela mais uma vez. Ela ouviu essa hesitação, ela sentiu que nada seria como foi antes de tudo ter mudado. Ele agora estava diferente e ela compreendeu que tinha de esvaziar a gaveta da memória abafada em salpicos de esperança. Uma gaveta inútil, afinal.
E, de repente, sentiu-se mais livre e mais feliz ao respirar o ar da manhã que lhe enchia as células de vida...
A seguir recebeu uma rosa branca e percebeu que tinha de deixar entrar mais sol pela janela já aberta.

segunda-feira, maio 16, 2011

l'amant



"Et puis il lui avait dit. Il lui avait dit que c'était comme avant, qu'il l'aimait encore, qu'il ne pourrait jamais cesser de l'aimer, qu'il l'aimerait jusqu'à sa mort."

Marguerite Duras

domingo, maio 15, 2011

a linha que nos separa


Passo a correr pela tua casa, não paro, não olho, não quero saber se estás. Corria o risco de te querer ver a sorrir para as nossas memórias e então perderia a força nas pernas da vida. Não quero. Tenho de seguir em frente em direcção ao meu lugar predilecto, aquele onde estou sozinha, encostada à beira-mar de mim, sentada na rocha do meu coração, a ler um bom livro de recordações incrustadas numa música de verão amarelo e intenso.
Releio as linhas do poema que fizeram o nosso último encontro e sublinho a linha que diz “tu e eu”. E separa-nos essa linha. E eu percebo o quanto tenho de caminhar sozinha, percebo o trilho que tenho de fazer pela floresta luxuriante da aridez.
E em casa penteio o cabelo. Em frente ao espelho apreendo a mensagem novamente, lavo o rosto e olho o meu reflexo e há uma nova linha que leio nos meus olhos: uma linha que diz luares e estrelas numa noite de verão em que falaste para fora e eu senti por dentro. Não foi verdade o que disseste. Não aconteceu, como prometeste. E por isso, agora, passo a correr pela tua casa para não me deter no entardecer do vazio.

terça-feira, maio 10, 2011

tu


Hoje amanheci com o sol dentro do peito e entrei pelas palavras a dizer que não, que não queria sorrir, que não queria sentir, que não queria ver-te. Como sempre, ignoraste o que te disse e trouxeste-me o chá da tarde guardado num bule com as recordações de outras tardes, em que sempre me rendi à magia que me arrasta para o teu coração dourado, para o teu abraço apertado, esse abraço onde gosto de ficar no suave calor que conheço.
“O teu abraço é eterno em mim…
Levo-te daqui para onde eu estiver, estás em todo o lado…”
Compreendo a luz nos teus olhos.
Hoje amanheci com essa luz…
E nos mares que nos separam encontramos os horizontes de lua cheia que nos unem.

You know how the time flies
Only yesterday
It was the time of our lives
We were born and raised
In a summer haze
Bound by the surprise
Of our glory days
 (Adele, Someone like you)

sexta-feira, maio 06, 2011

segunda-feira, abril 25, 2011

a varanda


A varanda está agora carregada de vasos e é pequena, estreita e curta.
Quando eu era criança a varanda era alta, espaçosa, tinha três vasos de cada lado e parecia-me suficientemente grande para caberem lá todos os meus personagens imaginários. Num cobertor remendado e gasto, estendia os meus brinquedos: latas velhas que serviam de panelas e tachos, dois bonecos que eram os meus filhos, um carrinho desengonçado que levava os meus filhos a passear ao jardim e eu a dona daquele enorme império que vivia um dia a dia repleto de tarefas interessantíssimas: dar de comer aos filhos, lavá-los, brincar com eles, levá-los a passear e conversar com as amigas que não estavam ali, mas falavam comigo. As férias de Verão eram longas e serviam para tanta coisa... E depois havia o cheiro do jardim, da terra húmida depois de regada, do sol morno na tarde, das rosas da minha mãe e das flores do jardim das vizinhas.
Haviam jardins bonitos. Eu costumava roubar uma rosa do jardim da Dª Maria, quando regressava da escola ao fim da tarde. A única mulher do sítio a quem todos chamavam Dona tinha um enorme casarão e uma fábrica de móveis e pintava as unhas e os lábios de vermelho e tinha o cabelo claro ondulado, carregado de laca. Eu escolhia a rosa mais bonita, quase sempre vermelha, quase sempre a que estava mais longe. E tinha medo de ser apanhada, receava que me ralhassem se me apanhassem a roubar uma flor. Pensava que a Dª Maria estava à espreita do seu casarão por detrás das cortinas. Felizmente, nunca fui apanhada. Depois guardava a rosa até que ela murchasse e ficava com pena que aquela beleza fosse tão fugaz.
A varanda agora é a mesma. A paisagem das casas vizinhas é a mesma. Agora vejo tudo mais alto. Vejo as casas na encosta que antes não via. Há lá umas casas novas. Há uma miséria semelhante.
Agora a varanda parece mais pequena, mas na verdade não é. Os odores nesta tarde de Páscoa tranquila são os mesmos. As rosas continuam no jardim da minha mãe, viçosas e perfumadas. As da Dª Maria desapareceram e o terreno ficou a monte, coberto de mato. O casarão está abandonado e fechado, a fábrica de móveis encerrada, as janelas do edifício têm os vidros partidos e a tinta das paredes desbotada está já a descascar. A riqueza, como as rosas, também pode ser efémera…

sábado, março 26, 2011

o cetim do dia



Escrevo nas linhas da tua pele
a chuva que cai lá fora em gotas grossas de ilusão
e nas linhas da tua pele reencontro a água que secou
e o olhar descobriu o sol que nasceu nos teus olhos
e as cores que inundam as paredes
e nada se repete como esta chuva que lava lá fora…

E dentro do meu quarto renascem no papel
as linhas da tua pele onde escrevo o cetim do dia…

secret



You must know me

I'm one of your secrets
You must know me
I'm one of your secrets
I belong to you
I belong to you
And you belong to me

You must know me
I'm one of your secrets
From what I see
You're trying hard to keep it
Oh yes you are

Well I belong to you
I belong to you
I belong to you
And you belong to me
Look at me
I'm your heart's keeper

Met for 3:21 AM
She will be here
Oh yes she will
And I belong to you
Yes I belong to you
I belong to you
And you belong to me
Look at me
I'm one of your secrets
From what I see
You're trying hard to keep it
Oh yeah


But I belong to you
I belong to you
I belong to you
And you belong to me
You belong to me
You belong to me

Uma canção maravilhosa para uma tarde de chuva!...

terça-feira, março 22, 2011

Shakira - Sale El Sol



Para um amigo especial que gosta muito da Shakira (eu também e de ti!). I'm enchanted to you :)
Beijo

segunda-feira, março 21, 2011

James Morrison - Broken Strings ft. Nelly Furtado



...I try to hold on but it hurts too much
I try to forgive but it's not enough

domingo, março 20, 2011

antes de ti...




Tu vês-me de vez em quando e pensas: lá está ela, altiva e com ar de sereia segura do seu encanto. Pena vê-la tão poucas vezes. E eu vejo-te e penso: lá está ele, nem me vê, nem sabe a cor dos meus olhos, nem sequer a cor do meu casaco. Tu vês-me e pensas: belo casaco cintado que a faz tão perfeita. E eu vejo-te descontraído a tomar café e penso: que olhos verdes tão cristalinos, nem olham para mim. E tu pensas: que olhar profundo e misterioso, parece sempre perdido, a olhar pela janela. Procurará alguém? E eu penso: que sorriso branco e perfeito a sorrir para o lado. Terá alguém? E tu pensas: não vale a pena falar com ela. Ela nem me vê. E eu penso: não vale a pena pensar nele. Ele nem me olha.

Um dia, tu e eu olhamo-nos ao mesmo tempo e fingimos que nunca nos vimos.
Um dia, dizemos um ao outro: por onde andaste todo este tempo? Vi-te em cada amanhecer e, na luz que me ofuscava, via o teu sorriso sem nome. Que caminhos fizeste tu, antes de mim? Que trilhos no mundo traçaste, antes de mim? Que noites de lua cheia abraçaste, antes de mim? O quê, antes de mim?
E diremos um ao outro, então: nada, antes de ti.

sexta-feira, março 18, 2011

endlessly




Caught in the waves of hesitation
Lost in the sea of my own doubt
For you I'll always wait

terça-feira, março 08, 2011

amor romântico


"O amor romântico é como um traje, que, como não é eterno, dura tanto quanto dura; e, em breve, sob a veste do ideal que formámos, que se esfacela, surge o corpo real da pessoa humana, em que o vestimos. O amor romântico, portanto, é um caminho de desilusão. Só o não é quando a desilusão, aceite desde o príncipio, decide variar de ideal constantemente, tecer constantemente, nas oficinas da alma, novos trajes, com que constantemente se renove o aspecto da criatura, por eles vestida."

pelo Mestre, Fernando Pessoa

Por estas razões tão bem colocadas no papel, compreende-se que para que o desencanto ou a desilusão não se instale na alma, se vista a alma de novos trajes ao longo da vida, para que as palavras que se seguem continuem a fazer sentido:

"Amo como o amor ama.
Não sei razão pra amar-te mais que amar-te.
Que queres que te diga mais que te amo,
Se o que quero dizer-te é que te amo?"

Fernando Pessoa, ainda.

domingo, março 06, 2011

maybe, one day...

WOW... what a song!!!




Lyrics | 30 Seconds To Mars lyrics - Closer To The Edge lyrics


No, I'm not saying I'm sorry
One day, maybe we'll meet again

quinta-feira, março 03, 2011

Hoje farias 63


Dizem que Deus só quer os bons junto de si, ou que os bons partem cedo.
Sim, partiste cedo. Cedo demais.
Mantém-se inalterada a lembrança dos teus gestos, do teu perfume, da tua presença, do teu sorriso e até da tua voz.
Continuas presente, viva e iluminada todos os dias.
No meu coração, hoje e sempre!
Porque existem pessoas inesquecíveis, e tu mãe és seguramente uma delas.

terça-feira, fevereiro 22, 2011

um simples passo

Não é isto a vida?
Um conjunto de passos dados cegamente, ou conscientemente. Passos que iniciam viagens ao íntimo de nós mesmos, ou viagens à procura de outros...

segunda-feira, fevereiro 21, 2011

domingo, fevereiro 20, 2011

o professor de música, o amigo da amiga e o desconhecido


Ela chegou em cima da hora, como de costume. Os passos apressados não enganavam…
O professor de música subiu as escadas atrás dela, correndo um pouco para a acompanhar. Pediu desculpa por ousar dirigir-se a ela. E depois, tossindo, titubeou:
“Desculpe, mas tinha de lhe falar. Não me conhece, eu sei, não me interprete mal, mas vejo-a sempre à quinta-feira a subir estas escadas e precisava de lhe dizer isso. Que a vejo a subir as escadas, assim, apressada e que… gostaria de lhe perguntar o nome.”
Com ar incomodado, olhando de lado e continuando a andar, ela responde:
“Porque quer saber?... Dá aulas cá? Nunca o vi por cá… É um professor novo, talvez, não conheço muitos dos professores novos…”
E parou. Algo nos seus olhos verdes a fez parar. Ele baixou os olhos, talvez para esconder a alma.
“Sou professor de música, mas não aqui. Venho cá dar as aulas para os alunos do Conservatório não terem de se deslocar e para facilitar o horário deles.”
Ela disse que estava atrasada, mais atrasada ainda do que há dois minutos atrás e sorriu-lhe.
“Falamos melhor na próxima quinta-feira.” E atirou-lhe o nome pelo ar, correndo pelo corredor, deixando-o para trás a sorrir também.

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Via-o raramente. Ele trabalhava na capital e não vinha a casa todos os fins-de-semana. Era amigo de uma amiga e saíam todos juntos de vez em quando. Falava pouco e ela não gostava disso. Não a atraíam homens calados, tímidos, hesitantes, parcos em palavras. Ela provocava-o com as palavras e ele sorria, mas não respondia.
Naquela noite ele estava particularmente atraente e a camisa azul claro, semi-aberta, deixava adivinhar um corpo bem torneado por horas de ginásio.
O que as palavras não diziam, pareciam dizer os seus olhos. Olhava insistentemente para ela, semi-cerrava os olhos e fazia um sorriso estranho, como que a enviar uma mensagem subtil de agrado. Olhou-a de alto a baixo, descaradamente, e acenou a cabeça. Talvez fosse desta que dissesse mais de duas frases com três palavras seguidas.
“Esse vestido fica-te bem. Revelador e discreto ao mesmo tempo. Vestes poucos vestidos e, afinal, ficam-te bem. Tens de deixar as calças de ganga mais vezes no armário… É uma pena encobrires o que é um deleite para os olhos.”
Revelador? Revelador era o testamento que ele acabara de dizer… Nunca tinha pronunciado tantos fonemas de uma só vez. E falava-lhe de roupa de forma atrevida… E comentava o que ela vestia. Jamais imaginara que ele tinha opinião sobre roupa. Ficou a saber, portanto, que ele apreciava pernas e as dela em particular. E sem saber bem porquê, começou a achá-lo um homem muito interessante…

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Os dias passavam obscuros, sombrios, pesados, enegrecidos pela falta de sol, que quase sempre lhe trazia falta de oxigénio e de alegria.
Em dias como esses, não tinha grande vontade de acordar para a vida, nem de se arranjar muito. Era um esforço enorme, esse que fazia, para não se deixar arrastar para a tristeza, para a depressão.
Detestava o que tinha de fazer nessa manhã: as compras para a semana. Faltavam tantas coisas em casa, por isso tinha mesmo de ir, ainda que chovesse. Saiu.
O semáforo estava vermelho e o carro da frente parara. Apeteceu-lhe ouvir música para animar um pouco. Olhou para o retrovisor esquerdo do carro da frente e percebeu que o condutor a olhava intensamente. Sentiu algum desconforto e parou de cantarolar a música que estava a passar na rádio.
O semáforo ficou verde e o carro da frente avançou devagar. Chegando ao parque do supermercado, ele seguiu em frente e ela deu o pisca e virou à direita. Respirou de alívio e estacionou. Entrou no supermercado e saiu depois, passado meia hora. Quando se aproximou do carro, viu um papel dobrado, metido no limpa-vidros. As palavras que leu estavam escritas com uma caligrafia meticulosa, perfeita, longa e bem delineada.
“Um dia ganharei coragem para lhe falar. Vejo-a muitas vezes na cidade, cruzamo-nos, mas nunca me olha. Hoje viu-me e eu vi-a, como de costume. A única diferença é que desta vez senti que me viu também, não fui transparente. Provavelmente estarei a assustá-la, mas não é minha intenção fazê-lo. Queria apenas dizer-lhe que estou aqui e que a vejo como uma luz, aquela luz que falta aos dias chuvosos de inverno.”

O que há em mim é sobretudo cansaço


O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço...


Álvaro de Campos (o heterónimo engenheiro de Fernando Pessoa)

sexta-feira, fevereiro 18, 2011

como o tempo



Tal como o tempo do lado de fora desta janela, tal como o céu carregado de nuvens densas, cansam-me os dias e as pessoas. Tão elementar: cansaço puro e simples. Vontade de ir Into The Wild, ou como diz um muito querido amigo meu: desaparecer. Mas sem deixar qualquer rasto, durante uns tempos, durante uns longos tempos. Apagar até o meu perfume do ar, o calor que deixo ao passar, o som da minha voz. Desaparecer.
Certamente não para sempre, certamente voltaria. Ou talvez não. Talvez ficasse por lá, pelos lugares infinitos e perdidos muito mais tempo do que aquele que imagino. Talvez não me apetecesse voltar nunca. Ou talvez voltasse. Largar tudo: casa, emprego, bens, pessoas, tudo. É isso que me apetece hoje, claro. Hoje, sexta-feira, dia 18 de Fevereiro de 2011. Talvez amanhã de manhã, que é sábado, já não me apeteça nada disto. Mas hoje era o que faria... Não o faço, porque há uma pessoa de quem não consigo fugir. Até consigo fugir de todas, mas dele não consigo. Nem nos dias em que me zango ou em que ele se zanga comigo.
E sempre que olho lá para fora e vejo a chuva a cair, sinto que, se não fosse por ele, não estaria aqui. Ele deve ter vindo para a minha vida por essa razão, para que eu não possa fugir. O Criador sabe que eu era capaz de o fazer, que eu era capaz de desaparecer e então enviou-me a mais fantástica e perfeita forma de encarceramento: o amor a um filho. E assim, ardeu, desapareceu, gone forever, foi-se a coragem... Fica a resignação, a calma que advém da razão, da força do sentimento. Fica o sorriso ao olhar para ele a teclar no computador mais uma estória que guarda, muitas vezes inacabada, interessantíssima e cheia de imaginação. Estórias que ele cria e que me dá a ler. Ou então são desenhos que faz e me mostra:  Olha! Eu olho e digo: Muito bonito! Espectacular mesmo! E ele refila: Nem olhaste, é sempre assim, nem olhaste bem... Já viste os pormenores? Viste as cores... Viste, viste? Vi, sim, vi tudo, rapidamente, eu sei, mas vi. Ele não entende que eu vejo rapidamente, que os olhos de uma mulher vêem até os pormenores e rapidamente. Mas refila. Queria que eu me demorasse nos detalhes, queria que eu olhasse e visse. Às vezes só olho, é verdade, outras olho e vejo. Mas não importa. Ele acha que eu vejo sempre à pressa. Mas sabe também que guardo tudo cá dentro...
Vontade de desaparecer hoje...
Deve ser do tempo, deve ser a depressão que advém da ausência de sol durante vários dias seguidos. Deve ser cansaço que nasce da falta de sol. É sexta-feira, um dia quase perfeito, em que começo a sentir o prazer antecipado do descanso e ainda assim fugia para longe, para muito longe de tudo, tudo...

Sleep, don't weep, my sweet love
Your face is all wet 'cause our days were rough
So do what you must do to fill that hole
Wear another shoe to comfort the soul

Damien Rice, Sleep, don't weep

segunda-feira, fevereiro 14, 2011

just to get in the mood...



Ganharam um grammy e tudo... E... é uma canção tão romântica... tão ao espírito deste dia...

Happy Valentine's Day to all my friends!

quarta-feira, fevereiro 09, 2011

silêncio


Ela decidira não falar mais, nao dizer mais nada, não explicar coisa alguma.
Ele entendera que tudo estava perdido ou guardado, para sempre, na memória comum que os unira um dia.
Ambos perceberam que era tempo de viajar até outras conversas que se fizessem com entusiasmo e paixão, conversas que tirassem o sono, ou que adormecessem num abraço. Conversas outras que tivessem alma e entrega e cumplicidade e terra fértil por dentro.
Acabaram os lugares deles, as canções deles, as palavras deles.
Ficou o silêncio estéril.
Ficou o silêncio como um luto eterno.
Só o silêncio diz a alma deserta.

domingo, fevereiro 06, 2011

quinta-feira, fevereiro 03, 2011

hold my hand...




The greatest one of all still lives on...

quarta-feira, fevereiro 02, 2011


Guardo o teu encontro como um segredo
para lá do olhar fica o que eu vi nesses olhos e o que me disseram em sussurros
a recordação é a imagem que guardamos no fundo do coração e onde podemos voltar a cada instante de saudade.

segunda-feira, janeiro 17, 2011

Admiração

Donde vem essa força que trazes?
Só daí mesmo.
Dessa capacidade ou dom que foi dado ao teu ser de seres também tu resiliente.
Não foi no meio de livros que crescente,
nunca te foi lida uma história para adormeceres
mas hoje lês as histórias como ninguém
enches cada frase de ti
colocas as palavras no sitio certo e escreves com o sentir
não foi por te ser dado esse caminho que hoje o percorres lá de cima
carregando cada frase de sentido e vida
não cresceste no meio de sonatas, serenatas, sinfonias ou concertos de musica clássica e erudita
nem te foi mostrado o mundo em viagens mesmo que imaginárias
mas nada disso te mutilou o desejo inconsolável pela descoberta e pelo saber
nada disto retirou sensibilidade para viveres um poema e enterneceres todo o teu ser numa palavra.

Adoro-te mana do meu coração.
Este é só um pedacinho do todo que admiro em ti.

Há sempre uma primeira vez

Em 6 anos, hoje, foi a primeira vez que o meu tesouro jantou tudo sozinho!!
Estou mesmo muito feliz! Nem queria acreditar quando me mostrou o prato vazio e com tanta alegria minha - nem imaginam a festa que fiz - foi escolher a sobremesa e de novo, sozinho, comeu tudo!!
Afinal é mesmo verdade: há sempre uma primeira vez!
Pode parecer ridícula a minha felicidade mas para quem todos os dias destes 6 pequenos anos teve que "criar" algum motivo para o fazer comer o essencial, hoje foi mesmo um jantar diferente.
Agora conto-vos o resto dos detalhes:
- primeiro escolheu o filme que queria ver. Adivinhem?
O Dragon ball Z- a força suprema.
Foi preciso uma força suprema para este facto acontecer. No final só dizia: a mãe está tão feliz!! E estou mesmo.
Há pequeninas coisas para uns que têm um significado enorme para outros.

quinta-feira, janeiro 06, 2011

Mario Vargas Llosa - Prémio Nobel da Literatura 2010

"Há coisas que se dizem com as palavras, outras só com lágrimas."

quarta-feira, janeiro 05, 2011

If time is all I have...



When you're older
The memories fade
But I know I'll still feel the same
For as long as I live

E há sempre uma forma de dizer o sentimento como se fosse uma roupa nova, acabada de estrear, como se fosse um vestido de cetim macio, suave, que toca a pele quase sem se sentir, mas que permanece agarrado a ela sem se notar.
Há sempre uma forma nova de dizer o antigo, um sentimento eterno que aconchega como um pijama quente em algodão puro a acalentar a alma deserta.
E se o tempo for tudo o que me resta, então será para isso... também.

quinta-feira, dezembro 23, 2010

Adagio




Non so dove trovarti
Non so come cercarti
Ma sento una voce che
Nel vento parla di te
Quest' anima senza cuore
Aspetta te
Adagio

Le notti senza pelle
I sogni senza stelle
Immagini del tuo viso
Che passano all' improvviso
Mi fanno sperare ancora
Che ti trovero
Adagio

Chiudo gli occhi e vedo te
Trovo il cammino che
Mi porta via
Dall' agonia
Sento battere in me
Questa musica che
Ho inventato per te
Se sai come trovarmi
Se sai dove certami
Abbracciami con la mente
Il sole mi sembra spento
Accendi il tuo nome in cielo
Dommi che ci sei
Quello che vorrei
Vivere in te

Il sole come sembra spento
Abbracciami con la mente
Smarrita senza di te
Dommi chi sei e ci credero
Musica sei
Adagio

Será possível melhor?...
Quatro homens assim, a cantar desta maneira?...

terça-feira, dezembro 21, 2010

All I want for Christmas!...



Musiquinha leve para animar este blogue que anda um pouco tristonho, com uma Mariah Carey ainda sem airbags e muito gira!

Eu até explicava melhor... O que quero para este Natal e tal, mas, como diz um primo que eu gosto muito: fica assim!...

sexta-feira, dezembro 17, 2010

Esperança

Acorda todos os dias com uma esperança.
Com a esperança que o dia de hoje seja melhor que o de ontem e pior que o amanhã.
Inventa maneiras de superar aquilo que sente.
Um vazio e uma dor como nunca antes sentira...
Todos lhe dizem que é forte e que o tempo, esse bendito, apaga tudo, suaviza e ajuda a aceitar e a entender aquilo que hoje não tem qualquer explicação.
Não acredita,ouve, mas não responde.
Sente-se amputada todos os dias. Parte de si morreu e debate-se por seguir em frente com essa limitação.
E engole em seco muitas vezes durante o mesmo dia. E chora em silêncio outras tantas.
Por um cheiro, por uma expressão, por uma memória, mas principalmente pela saudade.
Nunca gostou que os outros sentissem pena dela, que os olhares lhe recaíssem.
E por isso mesmo não fala do assunto com ninguém a não ser com ela própria.
Até porque já nada há para dizer e já ninguém a pode ajudar.
É definitivo,sem solução,sem retorno. Para sempre.
Perguntam-lhe diversas vezes o que queria este Natal.Apática, responde sempre o mesmo: nada...
Porque o seu desejo mais profundo era tão somente colocar mais um prato na mesa... e esse desejo, nem a estrela mais iluminada deste Natal, lhe irá conceder.

quinta-feira, dezembro 16, 2010

conto de Natal - epílogo



No dia de Natal, todos dormiram um pouco mais. Tudo passa, até a noite de Natal. A noite, afinal, fora curta.
Jantaram tarde. A mãe estava cansada, mas fez as batatas cozidas com o bacalhau. E havia bolo-rei e rabanadas e formigos. Os pais zangaram-se, como de costume, e depois da meia-noite as filhas receberam uma camisola rosa bebé, em algodão, que usariam quando fossem à missa. As camisolas eram iguais, mas de tamanhos diferentes. Lisas, da mesma cor e iguais. A mãe comprava muitas vezes roupa assim. Igual para as duas. Os pais não recebiam presentes. Por isso, o ritual de rasgar embrulhos era rápido. O pai saiu, a mãe foi dormir e as filhas viram um pouco de televisão no único canal que existia na altura. E havia um aperto no coração, uma esperança frustrada de que a imaginação não tivesse falhado tanto.
Cada um no seu mundo, viveu um Natal diferente. O do pai teria sido mais animado, o da mãe bem mais triste, o da irmã mais nova intenso, gravando cada segundo na memória para nada esquecer, para guardar dentro de si aquilo que quereria tanto apagar ao longo da vida e o da filha mais velha teria sido inventado, imaginado na sua cabeça, bem diferente do que era, alienado pelo poder da criação que tantas vezes a levaria para lugares recheados de cor e alegria, repletos de afecto e iluminados pelo calor de um abraço.
Tudo passa, tudo acaba, até a noite de Natal.

segunda-feira, dezembro 13, 2010

conto de Natal... ainda


Na véspera de Natal, o presépio era o mesmo. As palhinhas da manjedoura onde o menino Jesus estava deitado também tinham sido coladas. Estavam a desprender-se. O pai colara-as nessa semana, enquanto as duas tinham ido arrancar musgo aos muros para arranjar o presépio. Depois, quiseram levar ao mesmo tempo o menino Jesus para a sala e durante a bulha, deixaram-no cair nas escadas. Dizem que o pai ralhou muito e lhes bateu. A mais velha não se lembra. A mais nova garante que foram umas palmadas pesadas. A mão do pai sempre foi de temer. Raramente batia, mas quando o fazia ninguém mais esquecia. Excepto, talvez, a filha mais velha que costuma esquecer quase tudo. Nunca mais voltaria a procurar musgo, depois de sair da casa dos pais. O presépio não voltaria a ter peças coladas e as luzes não estariam fundidas. Haveria de ser tudo diferente.
Na véspera de Natal, acordou cedo com o cheiro da comida adiantada. A mãe fora trabalhar e chegaria de noite. O pai trabalhava sempre, todos os dias do ano, excepto no dia de Natal e de Ano Novo, porque saía a seguir ao jantar para tocar as Boas Festas e regressava já quase a raiar o dia. Raramente tinham folgas, naquele tempo. A mãe deixava sempre o almoço feito, ou quase, antes de ir trabalhar, mesmo que tivesse de estar na paragem da camioneta às 7h da manhã. O cheiro a sopa, a calda para o arroz, véspera de Natal…
Ela costumava meter a roupa debaixo dos cobertores para a aquecer antes de se vestir. Mais tarde, a mãe compraria um aquecedor que ficaria no quarto das filhas para elas poderem estudar na cama, quando o frio era muito. Depois, quando o filho mais novo nascesse também teria um aquecedor. A filha mais velha não se lembra de haver um aquecedor no quarto nos pais.
Só tens de acrescentar o arroz e deixar cozer. O pai não vem almoçar. Mãe.”, dizia o recado escrito por ela, deixado em cima da mesa. Assinava sempre Mãe, nunca se entendeu porquê. Só a mãe escrevia recados, só tinham aquela mãe, só as filhas os liam, como poderia haver engano?…
Estava habituada a acabar de cozinhar as refeições e sabia que tinha de limpar a casa com a irmã, nesse dia. Afinal era Natal. Limpariam tudo e quando a mãe chegasse fariam rabanadas e formigos. O pai gostava de rabanadas de vinho e a mãe fazia sempre um prato à parte só para ele. Mais ninguém as comia. Agora a mãe já não faz rabanadas de vinho. Agora a mãe está reformada e tem tempo, mas não as faz. Faz os formigos que a filha mais velha pede e a mãe sabe que gosta. Agora a mãe só quer agradar aos filhos. Antes estava sempre triste e gostava também do pai. E a filha mais velha pedia baixinho ao menino Jesus, antes de dormir, para que a mãe não se zangasse e o pai não ameaçasse de bater.
A mãe chegou cansada, já de noite e o pai tardou em chegar, nesse dia também.

…continua…

sábado, dezembro 11, 2010

conto de Natal



Não conseguia adormecer. No dia seguinte era véspera de Natal e a sua cabeça imaginava tanta coisa. Deitada na cama com quatro cobertores em cima, olhava o tecto manchado de negro pela humidade. Uma mancha parecia-lhe um rosto de um homem a gritar, outra mais abaixo parecia um novelo de lá cinzenta, à esquerda estava um girassol, curvado, como que a murchar. A irmã mais nova deitava-se do lado da janela, do seu lado esquerdo. Ela ficava do lado da porta, porque queria guardar o quarto, proteger a irmã de gatunos imaginários. Mais tarde compreenderia porque é que se habituara assim, porque é que escolhia ficar sempre desse lado da cama…
A sua cabeça imaginava e não a deixava dormir. Imaginava que no dia seguinte a mãe não iria trabalhar e iria fazer a ceia de Natal sem pressa, que o pai não iria tocar as Boas Festas com os amigos e com os irmãos, até de manhã, fazendo a mãe zangar-se durante uma semana, durante meses, durante toda a vida. Imaginava que o pai não iria implicar com tudo e que a mãe não iria gritar com elas, as filhas, com ele, com todos. Imaginava que haveria dinheiro suficiente para comprar presentes, que a mãe estaria menos triste e que o pai estaria menos ausente. Imaginava que viviam numa casa aquecida e com móveis bonitos e que teria roupa nova no sapatinho. Imaginava uma enorme árvore de natal e um presépio novo, com peças de porcelana brilhante e macia. Imaginava que o menino Jesus estaria intacto e não colado e com a face desfigurada.
Acabou por adormecer e, no dia seguinte, na véspera de Natal, correu a ver o presépio…

...continua...

segunda-feira, novembro 29, 2010

Utopia



Porque há músicas certas para determinados momentos.

quinta-feira, novembro 25, 2010

O AMOR

Comovo-me por demais sempre que os sinais do Amor me surgem diante dos olhos.
Esse mesmo, esse único que mesmo sabendo que não o consigo descrever em palavras sinto-o, vejo-o e vivo-o.
Basta-me uma centelha dessa luz para logo identificar: é isto mesmo! Isto é o AMOR.
Espreitem e digam-me se sentem o mesmo que eu.
http://vimeo.com/16473738
http://videos.publico.pt/Default.aspx?Id=5f0bddf4-86d7-4d3c-a286-3cc221e2ff27

terça-feira, novembro 23, 2010

As meias

Os dias começaram a arrefecer. Rápido demais para o meu gosto e para os meus sentidos.
Bastou dizer isto à mãe para ela prontamente resolver o meu problema."Eu faço-te umas meias quentinhas, queres?"
E, sem meias medidas, as meias apareceram prontas."Vê lá se estão bem para eu poder ajustá-las se for o caso". E lá me explicou como se faz quando o tamanho não está certo.
Tudo deveria ser assim de fácil resolução.
- Não serve? Traz cá que eu ajeito. Desmanchas aqui deste lado e acrescentas ou retiras o que for preciso. Deveria ser assim.
Sei que a minha mãe faz assim com quase tudo. Só não ajeita aquilo que é para uso dela pois para ela está sempre bem.
Mas não foi preciso. As meias estão perfeitas e bem feitinhas tanto pelo direito como do avesso. A minha mãe ensinou-me o que é a perfeição assim desta forma simples:
- Viras do avesso e está igualzinho ao direito. Se não for assim é coisa de gente trapalhona.
Eu diria antes que se não for assim é de gente trapalhona e que vive de aparências e apenas repara no que se vê pelo lado direito das coisas.
Certinhas no tamanho, com os detalhes de acabamento para não fugirem pelos pés (tantas coisas que gostava que saissem pelos pés!).
Estava gelada e só mesmo estas meias para me aquecerem os pés nestas noites frias que me gelam até a alma.
O carinho com que as fizeste para mim torna-as especialmente cómodas e aliviam até o que o coração ainda sente falta. Durmo com a companhia do carinho e amor de mãe.
E melhor que um par de meias só mesmo o que me deste a seguir: outro par, para que nunca durma de pés frios!

coisas boas e uns sapatos de verniz

Coisas mesmo boas: um pôr-do-sol à beira mar. Bem, não foi bem pôr-do-sol, o céu estava cinzento e as gaivotas descansavam nas rochas, indiciando tempestade no mar. Foi mais um entardecer a ver o mar revolto e a escutar a minha voz interior. Adoro estes momentos comigo. Sobretudo quando estou com bom humor e consigo aturar-me.
Outra coisa muito boa: um jantar em excelente companhia num restaurante italiano. Lasanha vegetariana e um jarro de sangria. Hummmm. Delicious… A seguir uma comédia semi-musical – “Encalhadas”! Hilariante, absolutamente fabulosa. Até tinha uma ex-miss Valongo (ou Balongo, como soar melhor). Ai como nos rimos… Se já estivesse na idade da incontinência iria ser complicado…
Para rematar a noite, outra coisa muito boa: um pé de dança num dos lugares do costume onde a música ainda é o que era. É sempre quando vou ao bar que me acontecem as abordagens imprevistas. Desta vez foi assim:
“Parabéns!” quase encostado ao meu ouvido. Despistada como sou, assustei-me. O homem tinha perto de 1.90m e riu-se. Perguntei-lhe porquê? Parabéns porquê, santa mãe de Deus… assustou-me a valer. Riu-se outra vez. “Pela sua beleza.” Encolhi os ombros e disse obrigada. Apetecia-me um vinho do Porto e não conversa da treta. Avancei em direcção ao bar. Pouco depois já na pista, de copo raso na mão (o barman foi muito simpático e encheu até transbordar) dou comigo a dançar menos para não entornar o precioso líquido e vejo o dito cujo a aproximar-se. Desta vez a tirada foi mais profunda: “Se olhar muito para si vou começar a ter de ler Braille…” AHAHAHA E ele continua: “Sim, porque ficarei cego.” Lembrei-me logo da outra frase: “És linda como o sol: nem te posso olhar de frente…” Enfim, os homens têm de passar por estes dramas em vários actos para poderem engatar. Costumo dizer que se fosse homem ia ser uma chatice. Jamais na vida faria uma ceninha destas. Iria acabar como o Clooney, solteiro aos 50. A mana diz que faria o mesmo que eles e muito pior, se fosse preciso. Eu cá, nem pensar. Sobretudo se levasse calçados uns sapatos de verniz, tamanho, digamos, 44,5 mais ou menos, e pior ainda, de bico. Sapatos de homem de bico são horrendos, segundo os meus ícones de beleza, mas mandam-me directamente para a cova se forem de verniz. O homem do Braille calçava um par deles do género. Deviam ser caríssimos, não duvido, mas perdi a compostura e desmanchei-me a rir. “É ainda mais bonita a rir, tem um sorriso lindíssimo…” Pronto, levantei-lhe a mão e disse: “Páre, não diga mais nada, por favor!” E lembrei-me da outra vez em que disse ao Italiano: “Parla, gosto de te ouvir!” Irra, sou mesmo mandona. Mas, quer um quer outro, obedeceram. É o que importa.

No dia seguinte, havia outra coisa muito boa: um convívio de família. Primos e primas que já não se viam há cerca de vinte anos, nalguns casos mais, resolveram juntar-se numa tarde gelada de Novembro à volta do churrasco e das castanhas e lembraram a infância e as brincadeiras, a juventude e as aventuras, os dramas, as alegrias, as conquistas, as lutas de cada um. Uns estavam quase na mesma, outros com uns valentes quilos a mais, outros ainda com menos cabelo, porque a testosterona circula em grandes doses na família e os homens não ficariam muito bem de cabelo comprido, se o tivessem. Os filhos de uns e outros que não conhecíamos, as contas de cabeça para adivinhar a idade de cada um. Ai como o tempo passa…

Carpe diem!… E muitas coisas boas, de preferência!

sábado, novembro 13, 2010

milk and toast and honey :)



Que saudades...
Porque é que tem de ser sempre tudo ou nada?

"... make it sunny on a rainy Saturday..."

quinta-feira, novembro 11, 2010

momentos do dia

CASTANHAS

Vinte e cinco anos. Rua do Ouro. Lisboa. Grávida de sete meses. Tarde fria de Domingo. Caminhávamos os dois pela rua e havia um cheiro delicioso a castanhas assadas no ar. Era um passeio de Domingo. Um jovem casal em 1996. Uma futura jovem mãe a sonhar com o seu primeiro filho. Uma futura mãe feliz por sentir que ia receber o seu tesouro dentro de dois meses. Que cheirinho tão bom a castanhas assadas! Compramos castanhas. A vendedora olha-me e diz: “Vai ser rapaz!” Eu sorri e disse que sim! Que bom, vai ser rapaz! Sempre quisera ter um filho rapaz! Parecia feliz…


AULA DE INGLÊS

Faltavam 20 minutos para o fim da aula numa turma de 10º ano. Estava tudo combinado. “O meu amigo está lá fora. Já tínhamos combinado, lembra-se Stôra?” Sim. Já tínhamos combinado. O miúdo tem uma banda. Quer cantar para mim, para os colegas… “Podemos, Stôra? Lembra-se de termos combinado na semana passada?” Claro que lembro. Porque não? Manda entrar o teu amigo. Disse mais duas ou três coisas em Inglês para a turma. Estávamos a falar de amizade! Best friends, boys and girls. Different types of friends… Um tema muito interessante, uma conversa muito animada. Mas a banda, a música, o miúdo giro que queria cantar para todos! Ok. Continuamos amanhã. Duas violas, três cadeiras. Dois tocam, cantam três. As letras na mão do do meio, que só canta. Os outros levantam-se e colocam-se em círculo à volta deles.
Silêncio. Começam a cantar em Inglês. A turma acompanha nos refrões. São covers de músicas muito conhecidas de todos. Vinte minutos em Inglês. Com música. “Esta é a minha canção preferida. É minha e do meu melhor amigo!”, disse-me uma miúda ao ouvido, quinze anos muito bonitos, com um enorme sorriso na cara! Sempre em Inglês, com muita amizade, cantaram até tocar para sair. Acho que foi uma boa aula sobre amizade, no dia de S. Martinho!

“The smile on your face, lets me know that you need me. There’s a truth in your eyes saying you’ll never leave me. The touch of your hand says you'll catch me wherever I fall…”

monólogos


Tímido, educado, cuidadoso.
Nem ele sabe bem explicar como é. Ela também não. Ocorrem-lhe estas palavras, mas parecem-lhe imperfeitas para o caracterizar. Sorri bastante quando fala com ela. Não é costume. É poupado em sorrisos. E avarento nas palavras. Ela enerva-se com isso. Ele diz que sofre de um problema com a tecla do “backspace”, o que o leva a hesitar, a apagar os registos quer escritos, quer falados. Volta atrás no pensamento, reformula, hesita de novo, escolhe as palavras mais uma vez, perscruta o olhar dela, reflecte de novo na escolha das palavras, tortura-se com a forma como as vai dizer. E ela aguarda. A paciência não é o seu forte. A impaciência lê-se nos olhos dela. Ele fala baixo, muito baixo. Por vezes ela não o entende. Esforça-se por ouvi-lo, mas ele não se apercebe.
“Whatever…”, diz para si mesma. “Fine…”, pensa às vezes. Ela pensa muitas vezes em Inglês. Deformação profissional. Discorre em Português e ele escuta. Por vezes ele diz coisas incompreensíveis.
“Lembro todas as roupas que ela usou, em todos os poucos encontros que tivemos.”
“Quando foi a última vez que se encontraram?”, pergunta alguém.
“ Há uns meses, mas posso dizer-lhe quantos dias passaram até hoje…”
Não fala de sentimentos. Diz que não gosta da solidão. Procura refúgio nos montes e corta sem piedade uma rosa do jardim para lhe entregar. Ela não entende, mas agradece.
Diz que falará, que lhe contará tudo. Ela não sabe o quê, nem do que é que ele está a falar. “Mas tem de ficar ao meu lado.” Outra frase incompreensível. Outro mistério. Oferece-lhe uma segunda rosa, num outro encontro fugaz; outra rosa impiedosamente cortada com a tesoura de poda do seu jardim. Diz-lhe que aquela tem um nome: chama-se rosa e ela não entende. Agradece-lhe várias coisas que ela não se apercebe de ter feito. Agradece-lhe estar melhor. E as gargalhadas que dá com ela. E ela fica feliz, porque ele sorri mais que habitualmente. E ele no fim diz “Obrigado.” E ela encolhe os ombros e pensa que nunca o entenderá. E ele diz que ela está diferente desde a última vez, o cabelo está diferente, mais encaracolado, mais comprido. Ela fica sem saber se ele gostou, se gosta mais, mas isso não parece importar. Ele pede-lhe para ela continuar assim. Ela não sabe bem como é que tem de continuar. Ela só sabe que ele fez um enorme poster com o rosto dela a sorrir, um poster a preto e branco, um retrato feito de números e ele diz que tem outro feito de palavras. Sempre o rosto dela a sorrir, para ele, para todos. Passaram dois meses, muitos dias sem vê-la. Ele diz que tinha de fazer alguma coisa. Ela dá uma gargalhada e diz-lhe que ficou confusa. Ele diz que não há confusão nenhuma, que o retrato é para lhe oferecer. E ela pensa que ele é um louco adorável e surpreendente e que nunca o entenderá.

domingo, novembro 07, 2010

O Italiano


É preciso inspiração para escrever seja o que for. Mesmo uma carta de reclamação que seja. Posso dizer que na noite passada tive a minha inspiração alimentada pela realização de um velho sonho: ter um belo Italiano a falar-me ao ouvido.
Costumava dizer como brincadeira que sonhava ter um belo ragazzo di parlare solo per me, de preferência ao ouvido. E foi o que aconteceu, sem que tenha tido necessidade de sair de Portugal, ou como no filme Eat, Pray, Love tivesse de me meter num avião e ir à procura de um tradutor em Itália onde aprenderia essa amorosa língua enquanto saboreava um saboroso gelado de café. E ele teve de me falar ao ouvido mesmo, pois a música do bar estava, como habitualmente, muito alta. Com imensa pena minha, não sei parlare a língua de DaVinci, mas fascina-me a sua musicalidade. Não me interessa muito o que é dito, desde que seja em italiano, tudo me parece romântico, até a ementa de um restaurante.
O bello Morris (espero que seja assim que se escreve o seu nome), com ar de James Dean, começou por brindar no meu copo à minha passagem. Assustei-me e afastei instintivamente o braço. Ele perguntou em Inglês:
Do you speak English?
Yes, I do. Respondi com um sorriso a meio gás. Já é costume os Ingleses virem falar comigo. Devo ter um ar… internacional.
I’m Italian. O sorriso alargou-se mais um pouco e percebi que ele já devia estar habituado a esta popularidade entre as mulheres nacionais.
Espantoso, pensei. Venho ouvir uma musiquinha revivalista num barzinho para cotas de meia idade como eu, ou mais entradotes até, e encontro… um ITALIANO! Eram vários, na verdade. Um grupo de seis ou sete, mas o Morris era o mais bonito. Muito atraente numa camisa branca desabotoada nos dois primeiros botões. Alto e… de olhos azuis. O meu Italiano, o da minha imaginação, era mais moreno e de olhos escuros, mas pronto, não é por isso que vou reclamar.
Apresentou uma série de pessoas, todas muito simpáticas (amigas Portuguesas incluídas) e ficou a olhar para mim. Fez-me perguntas em Italiano, mas eu falava pouco. Ele perguntou se eu não gostava de falar. É óbvio que gosto, mas não sei falar italiano, por isso disse-lhe:
Parla, gosto de te ouvir! Assim mesmo, em tom de ordem. Mal sabia ele que era só o que eu queria, que era esse um dos meus desejos mais secretos!
La ragazza più bella del bar ; il tuo sguardo mi affascina; il mio cuore batte più forte; Sono innamorato di te... etc, etc
Falou sim, muito. Tantas coisas que os meus ouvidos entraram em êxtase! Tinha vinte e sete anos, mas parecia ter mais. Perguntou se eu tinha vinte e oito. Nada mau, para quem tem mais onze. Perguntou se queria fugir com ele. Disse-lhe que sim, que podíamos fugir para Roma logo a seguir à canção Billy Jean do Michael Jackson. (Curiosamente, o perfume que eu escolhi para essa noite chamava-se Roma e já não o usava há vários meses… Outras histórias que não cabem aqui…)
Dançamos bastante, rimos bastante, escutei-o bastante e, por fim, aproveitei uma distracção dele para escapar. Deve ter ficado a pensar que eu era maluca, quando deu pela minha ausência, mas eu só pensei que tinha de fugir antes que ele me apanhasse, pois a frase que me ocorria mais vezes, enquanto apressadamente me dirigia ao carro, era aquela bem conhecida: Oh God make me good, but not yet!

 
(Now I think I have inspiration to write a book!)

sábado, novembro 06, 2010

as cores do dia




Às vezes é preciso tão pouco para se ser feliz.
Às vezes basta uma nuvem dissipar-se, basta encontrar uma resposta, basta uma palavra, um sono reparador, uma convicção interior...
Adormeci sem respostas, acordei com uma decisão e as cores do dia são tão mais quentes, agora! Agora há um sol intenso, doce, luminoso, lá fora. Agora respiro. Agora as horas não custam e a poeira da embriaguês momentânea que entorpeceu a lucidez dissipou-se.
Sempre me soube tão bem a liberdade! Sou um ser estranho: amo mais a liberdade que tudo o que é material. O embalo suave da paz interior que enche o coração de alegria, pintou as cores deste dia... O azul e o dourado enchem a manhã lá fora. E eu respiro este Outono morno e suave por dentro...

quarta-feira, novembro 03, 2010

you give me something...




"You're AMAZING just the way you are..."

sábado, outubro 23, 2010

e se a chuva que vai cair fosse mesmo para lavar?...



e se a chuva que vai cair fosse mesmo para lavar?
lavar a alma como uma fonte cristalina lava as pedras
lavar o espaço perdido entre o corpo e a alma
lavar as memórias sem fio, soltas na espessura do pensamento torturado
lavar as cores de um pressentimento escasso e titubeante que teima em surgir
lavar a terra que temos no coração
lavar os rostos que ainda não conhecemos e de quem já temos saudade
lavar o espectro de um som de fatalidade
lavar
lavar tudo
lavar mesmo tudo
e deixar apenas ficar o som do vento
dentro de nós...

terça-feira, outubro 05, 2010

Eat Pray and Love



"...Sempre que pensares naquele(a) que amas, envia-lhe Luz e Amor, e de seguida esquece.
Não te feches ao Amor, mas permite-te a Amar.
Não permitas que a intensidade do Amor que alguém te dá seja menor do que aquele que tens por ti mesma.
O Amor em si mesmo já é equilíbrio, então quando estiveres a Amar não receies perder o equilíbrio."

sábado, outubro 02, 2010

Quadro de valor e excelência 2


Este foi especial, porque foi surpresa! Diploma de Valor pelas capacidades artísticas...Parabéns, miúdo! (Sim, mãe babada, claro! E emocionada!)

Quadro de valor e excelência 1


Entrega de diplomas do Quadro de Valor e Excelência da Escola Secundária de Lousada, relativos ao ano lectivo 2009-2010. O primeiro é diploma de Excelência pelos resultados académicos.

segunda-feira, setembro 20, 2010

Uma Direcção, e Não Soluções


"A diferença entre solução e direcção é esta: a solução é sempre um remédio passageiro para disfarçar a desgraça. Ao passo que a direcção é a própria dignidade posta nas mãos do desgraçado para que deixe de o ser, e a direcção única é a garantia perpétua dessa dignidade."
Almada Negreiros, in "Ensaios"

quinta-feira, setembro 09, 2010

Doce de tomate



Recordo-me de em criança, e mais ou menos por esta altura do ano, fazer doce de tomate,em casa dos meus pais.
Os tomates eram do quintal do pai e eram apanhados bem madurinhos, para o doce ficar mais saboroso.
Como eu já em criança adorava cozinhar, corria sempre para a cozinha e ficava a tarde toda junto da minha mãe naquele ritual que estava em torno da preparação de um simples doce de tomate.
Iamos buscar o tomate ao quintal, que tinha sido previamente apanhado pelo meu pai e posto a secar ao sol, ou a enxugar, como ele dizia!
Depois lá iamos as duas escada acima com um cesto grande e bem cheio de tomate.
Seguia-se o tirar das peles, das grainhas e o cortar em pedaços mais pequenos.
A medida era sempre a mesma, um quilo de açucar para cada quilo de tomate.
Era uma tarde inteira, a mexer e a voltar a mexer o doce que estava na enorme panela de alumínio.
No início sentia-se só o cheiro do tomate crú, mas com o passar das horas este cheiro era substituído por um cheiro a caramelo que indiciava o fim da preparação do nosso doce.
Dali saiam muitos frascos, que na sua maioria eram oferecidos a vizinhas, familiares e amigos.
Com o passar dos anos e com a minha saída de casa dos meus pais, deixei de fazer doce de tomate.
Em contrapartida todos os anos, e sempre por esta altura, recebia doce feito pela minha mãe, que continuava a cumprir o ritual do doce de tomate.
Em troca dava-lhe doce de figo que, nestes últimos anos, aprendi a fazer com minha amiga Carla.
"Ai filha, esse doce eu não consigo fazer" - dizia-me a minha mãe com o seu sorriso envergonhado.
E eu inconscientemente e de uma forma quase mecânica, respondia-lhe que não fazia mal porque eu fazia para nós as duas.
Estava enraizada esta troca e estou certa que nenhuma de nós as duas, se apercebeu disto.
Apercebi-me desde enraizamento, quando ele deixou de existir.
Quando estas raízes e estas pequenas rotinas que nós uniam foram quebradas. Quando senti que por esta altura do ano e ao contrário de todos os anos anteriores, não haveria doce de tomate...
E hoje, porque senti a falta do cheiro do tomate, do cheiro do caramelo, mas principalmente do seu cheiro, resolvi fechar-me na cozinha e fazer o "nosso" doce de tomate.
Aquele que eu fazia com a minha mãe quando era pequenita!
E porque o Gonçalo esteve a ajudar-me na sua confecção, fui-lhe contando emocionada tudo aquilo que acabei por escrever aqui.
Sorrimos os dois e lembramos-nos dela assim, como sempre foi, alegre, meiga, enérgica e tão doce como o doce de tomate que tinhamos acabado de fazer...

sábado, setembro 04, 2010

Se a vida fosse...

Não se acostume com o que não o faz feliz, revolte-se quando julgar necessário.
Alague o seu coração de esperanças, mas não deixe que ele se afogue nelas.
Se achar que precisa voltar, volte!
Se perceber que precisa seguir, siga!
Se estiver tudo errado, começe novamente.
Se estiver tudo certo, continue.
Se sentir saudades, mate-a.
Se perder um amor, não se perca.
Se o achar, segure-o.
Fernando Pessoa

quinta-feira, setembro 02, 2010

Fearless love




When I woke up I was 17
You kissed my lips in a bad bad dream
Showed me things aren't what they appear to be
Called me angel and set me free
You gave me life in the cold cold dark
But you ran away in the mornings spark
Made me think that reality
Is not where I want to be

I am what I am and
I am what I am afraid of
Oh what am I afraid of
I need a fearless love
Don't need to fear the end
If you can't hold me now
You will never hold me again
I want to live my life
Pursuing all my happiness
I want a fearless love

I won't settle for anything less
I've walked my path had worlds collide
I lost my way and I fooled my pride
This lover's ache wouldn't feel so strange
If I could only change
But I am what I am and
I am what I am afraid of
So what am I afraid of
I need a fearless love
Don't need to fear the end
If you can't hold me now
You will never hold me again
I want to live my life
Pursuing all my happiness

I want a fearless love
I won't settle for anything less
Now I'm not here to lay the blame
I understand when you hold a flame
Heads will shake heads will turn
And sometimes you just get burned

quinta-feira, agosto 19, 2010

um olhar, por agora...


todos os amantes
todos os suspiros por mais um segundo
todos os sussurros de não partirei
todos os momentos de eterno
toda a vida num só grito

toda a eternidade num toque
todo o silêncio numa melodia de manhã de primavera
todo o começo e todo o fim num sorriso
toda a cor numa flor entregue sem nome
toda a luz num céu limpo de nuvens

tudo se cristaliza num olhar apenas
aquele que vem de onde nascem as fontes mais puras
aquele olhar onde nasce o mundo para mim
e em mim

fechemos os olhos
agora

domingo, agosto 15, 2010

hand me down, matchbox twenty



(I know...
You don't have to say a word...)


Someday they'll find your small town world
On a big town avenue
Gonna make you like the way they talk
When they're talking to you
Gonna make you break out of your shell
Cuz they tell you to
Gonna make you like the way they lie
Better than the truth
They'll tell you everthing
You wanted someone else to say
They're gonna break your heart, yeah
From what I've seen
You're just one more hand me down
Cuz no one's tried to give you
What you need
So lay all your troubles down
I am with you now
Somebody oughta take you in
Try to make you love again
Try to make you like the way they feel
When they're under your skin
Never once do you think that they would lie
When they're holding you
Then you wonder why they haven't called
When they said they'd call you
You'll start to wonder
If you're ever gonna make it by
You'll start to think
You were born blind
From what I've seen
You're just one more hand me down
Cuz no one's tried to give you
What you need
So lay all your troubles down
I am with you now
I'm here for the hard times
The straight to your heart times
When living ain't easy
You can stand up against me
And maybe rely on me
And cry on me, yeah
Oh no, no, no
Someday they'll open up your world
Shake you down to the drawing board
Do their best to change you
They still can't erase you
From what I've seen
You're just one more hand me down
Cuz no one's tried to give you
What you need
So lay all your troubles down
I am with you now
Lay them down on me
You're just one more hand me down
And all those nights don't give you
What you need
So lay all your troubles down
On me

quinta-feira, agosto 12, 2010

quando o mar era azul, como o futuro...



Eram as férias de Verão e acordávamos cedo, demasiado cedo para a época do ano... Só uma coisa nos fazia acordar antes do meio-dia, nas férias, em pleno Agosto: a praia!
Garotas adolescentes, muito responsáveis já, estávamos um dia inteiro fora de casa, por nossa conta, sem pais por perto... E às 8h da manhã, lá nos encontrávamos, na paragem da camioneta... Esta levava pessoas para a praia, desde a aldeia em que vivíamos até Leça. Agora é uma vila, naquele tempo ainda era aldeia, e Leça ficava muito longe... Quase uma hora de caminho... Regressavamos às 18h. Era um dia passado à beira-mar, livremente, sem restrições nem regras, excepto as que guardávamos na nossa cabeça e cumpríamos escrupulosamente. O protector de vez em quando, a bandeira vermelha, as horas depois de comer sem ir à água e pouco mais...
Ao lembrar agora aqueles dias, nem posso acreditar que não saía da água gelada todo o dia. Fazia apenas um intervalo para comer e cumprir as três horas da digestão, para logo a seguir entrar nas águas gélidas do Atlântico e lá ficar a mergulhar até os lábios se tornarem roxos e deixar de sentir as mãos e os pés, com a pele enrugada e branca. O mar do Norte continua assim, gelado, todo o ano. Naquela altura, a água não me parecia tão fria, excepto ao entrar.
E fazíamos amigos, e conversávamos e ríamos e jogávamos às cartas e voltávamos para casa, tendo gasto apenas 20 escudos num gelado, não todos os dias, só às vezes. Era um tempo em que uma criança era feliz com um gelado...
Nesse tempo longínquo das minhas memórias, lembro que me sentia feliz nesses dias de Verão e quando a minha cabeça voava para longe, normalmente na viagem de regresso, sentada nos assentos gastos da camioneta velha da empresa onde o meu pai trabalhava (por isso não pagávamos bilhete e só por isso podíamos ir todos os dias), a minha cabeça levava-me para um futuro muito azul, muito mais feliz, muito cheio de tudo e cheio de alegrias. O meu pensamento, que já naquela altura não conseguia ser domado, levava-me para praias exóticas, com gente muito bonita e rica, com cocktails a serem servidos a gosto, com areias brancas e extensas, com palmeiras e mares muito azuis de águas quentes...
Nesse tempo, nesses dias em que eu era feliz só por olhar o futuro com um mar mais azul do que este onde estou hoje, eu pensava a vida com cores que o pintor da criação talvez ainda não tivesse na sua paleta.
Por isso, hoje, nesta praia de enorme areal e neste mar de águas mornas eu recordo o Verão da minha adolescência e dá-me vontade de dizer àquela menina de então que continue a sonhar, que continue assim, ingénua, a pensar o futuro com um mar muito azul e com cores ainda por descobrir...

quinta-feira, julho 29, 2010

Madrid?... No me encanta...


Madrid poderia ser tanta coisa...
Mas foi apenas mais uma cidade, nem por isso fascinante, nem sequer apaixonante... Cidade de grande diversão nocturna, cosmopolita, descontraída, não fossem as pessoas, os nativos, os Espanhóis mesmo, pouco simpáticos, mal encarados, pouco hospitaleiros, desagradáveis, estragarem grande parte daquilo que poderia até ser uma cidade europeia algo bonita...
Os jardins são o que de melhor a cidade oferece, belíssimos, sobretudo o Parque Del Retiro e Casa de Campo. Os monumentos são únicos (não fosse a Espanha a terra natal de grandes nomes da pintura e escultura). A arquitectura não impressiona, nem mesmo os edifícíos da Gran Via, zona moderna e ampla, se tivermos em mente as avenidas de Paris repletas de luz e a imponência das construções londrinas nas margens do rio Thames. Os Museus são interessantes (mas Paris e Londres ficaram com o melhor... temos pena!)...
A comida tradicional resume-se a tapas, bocadillos, tortilla e... pouco mais, sempre acompanhada de pão duro, pobreza gastronómica que enjoa os visitantes e surpreende os turistas que procurarem ingerir o mesmo tipo de comida que os nativos, durante vários dias. E a água engarrafada é literalmente desconsolada e sem sal... 
E a noite? A famosa noite madrilena? Para a maioria dos jovens que não podem gastar 50 euros ou mais para se embebedarem nos bares e discotecas da cidade, a noite inicia-se cedo e passa por começarem a beber por altura da siesta, a meio da tarde. Vê-se grupos de jovens com garrafas de whisky, rum, vodka e cerveja, deitados à sombra das árvores dos frondosos jardins do centro da cidade e a maratona etílica continua até de madrugada, acompanhada de outras substâncias ainda mais excitantes (?). À noite, para gáudio dessa juventude alienada, há chineses, indianos e outros imigrantes a venderem cerveja a 1 euro, bem fresca nas ruas e jardins... A cerveja, que num bar custa 5 euros, é recebida de braços abertos.
Nos bares, a droga circula quase livremente... Algo que nunca tinha visto na noite do Porto ou em Braga ou noutras cidades. Os que já estão mais "alegres" metem conversa e oferecem um charro de marijuana, uma linha de coca, só para socializar, para fazer "amigos"... A surpresa é total quando mostro o meu copo de Ginger Ale e digo que não fumo, logo, muito menos consumo dessas substâncias psico-trópicas... (Devo ser extra-terrestre!) Nem me dou ao trabalho de explicar que tenho outras formas muito mais saudáveis de ficar zen, mas entristeceu-me o olhar vazio da juventude que a cidade absorve e destrói, lentamente, sem eles darem por isso...
Coisas boas: os Portugueses que por lá se encontram; o tinto de verano (sangria), a música latina que sempre me apaixonou, nos bares dedicados à mesma;  o calor e o sol, as árvores, os lagos e os jardins e o mercado de domingo, o El Rastro! Ah, e uma ópera de Verdi com Plácido Domingo no Teatro Real ouvido e acompanhado num écran no Jardim Real, no lado de fora do teatro, sentados na relva, seguida de 27 minutos de palmas consecutivas na presença da Reina Sofia e um espectáculo de flamenco, de nome Carmen, com bailarinos profissionais.

Saudades de Madrid? Talvez... Lá para os setenta, quando já não me lembrar bem do que vi e senti...

quarta-feira, julho 14, 2010

Lágrimas na minha alma


Faz hoje um mês que estivemos juntas pela última vez. Que te beijei, que me despedi com a promessa de voltar no dia seguinte. Abanaste a cabeça em sinal afirmativo.
Mas não houve amanhã …

Faz hoje um mês que uma parte de mim morreu. Morreu e eu de mãos atadas nada pude fazer para te salvar.

Faz hoje um mês que te trago a cada instante no meu pensamento.

Faz hoje um mês que percebi o significado de para sempre, do eternamente, do nunca mais, da injustiça e da crueldade.

Faz hoje um mês que caminho para o cemitério na ilusão de te encontrar, de te sentir mais perto.

Faz hoje um mês que as saudades crescem a um ritmo alucinante no meu peito.

Faz hoje um mês que as nossas conversas silênciosas, os nossos olhares cúmplices, tiveram um fim.

Faz hoje um mês que há lágrimas na minha alma.

quinta-feira, julho 08, 2010

Bonita



Para ti querida Mimi que és, sem dúvida, um dessas pessoas! Beijinho.

terça-feira, julho 06, 2010

O valioso tempo dos maduros




Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente do que já vivi até agora.
Tenho muito mais passado do que futuro.
Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas.
As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos.
Detesto fazer acareação de desafectos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário-geral do coral. 'As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos'.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa...
Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade, Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade, O essencial faz a vida valer a pena.

E para mim, basta o essencial!


Mário de Andrade (1893-1945)

sexta-feira, julho 02, 2010

Eu acreditava...


"Eu acreditava mesmo que o amor é o sangue do sol dentro do sol. A inocência sincera de desejar que o céu compreenda. Eu acreditava que se levantam tempestades frágeis e delicadas na respiração vegetal do amor. Como uma planta a crescer da terra. O amor é a luz do sol a beber a voz doce dessa planta. Algo dentro de qualquer coisa profunda. Eu acreditava que o amor é o sentido de todas as palavras impossíveis."

Assim escreve José Luís Peixoto em "Uma Casa na Escuridão"

Quem não fica com vontade de ler um escritor assim?...

(Eu também acreditava que o amor era o sentido de todas as palavras impossíveis. E ainda acredito!)