Aqui tudo pode acontecer... mas são essencialmente as nossas viagens pelo mundo das ideias e das experiencias que aqui podemos partilhar...
segunda-feira, setembro 20, 2010
Uma Direcção, e Não Soluções
"A diferença entre solução e direcção é esta: a solução é sempre um remédio passageiro para disfarçar a desgraça. Ao passo que a direcção é a própria dignidade posta nas mãos do desgraçado para que deixe de o ser, e a direcção única é a garantia perpétua dessa dignidade."
Almada Negreiros, in "Ensaios"
quinta-feira, setembro 09, 2010
Doce de tomate

Recordo-me de em criança, e mais ou menos por esta altura do ano, fazer doce de tomate,em casa dos meus pais.
Os tomates eram do quintal do pai e eram apanhados bem madurinhos, para o doce ficar mais saboroso.
Como eu já em criança adorava cozinhar, corria sempre para a cozinha e ficava a tarde toda junto da minha mãe naquele ritual que estava em torno da preparação de um simples doce de tomate.
Iamos buscar o tomate ao quintal, que tinha sido previamente apanhado pelo meu pai e posto a secar ao sol, ou a enxugar, como ele dizia!
Depois lá iamos as duas escada acima com um cesto grande e bem cheio de tomate.
Seguia-se o tirar das peles, das grainhas e o cortar em pedaços mais pequenos.
A medida era sempre a mesma, um quilo de açucar para cada quilo de tomate.
Era uma tarde inteira, a mexer e a voltar a mexer o doce que estava na enorme panela de alumínio.
No início sentia-se só o cheiro do tomate crú, mas com o passar das horas este cheiro era substituído por um cheiro a caramelo que indiciava o fim da preparação do nosso doce.
Dali saiam muitos frascos, que na sua maioria eram oferecidos a vizinhas, familiares e amigos.
Com o passar dos anos e com a minha saída de casa dos meus pais, deixei de fazer doce de tomate.
Em contrapartida todos os anos, e sempre por esta altura, recebia doce feito pela minha mãe, que continuava a cumprir o ritual do doce de tomate.
Em troca dava-lhe doce de figo que, nestes últimos anos, aprendi a fazer com minha amiga Carla.
"Ai filha, esse doce eu não consigo fazer" - dizia-me a minha mãe com o seu sorriso envergonhado.
E eu inconscientemente e de uma forma quase mecânica, respondia-lhe que não fazia mal porque eu fazia para nós as duas.
Estava enraizada esta troca e estou certa que nenhuma de nós as duas, se apercebeu disto.
Apercebi-me desde enraizamento, quando ele deixou de existir.
Quando estas raízes e estas pequenas rotinas que nós uniam foram quebradas. Quando senti que por esta altura do ano e ao contrário de todos os anos anteriores, não haveria doce de tomate...
E hoje, porque senti a falta do cheiro do tomate, do cheiro do caramelo, mas principalmente do seu cheiro, resolvi fechar-me na cozinha e fazer o "nosso" doce de tomate.
Aquele que eu fazia com a minha mãe quando era pequenita!
E porque o Gonçalo esteve a ajudar-me na sua confecção, fui-lhe contando emocionada tudo aquilo que acabei por escrever aqui.
Com o passar dos anos e com a minha saída de casa dos meus pais, deixei de fazer doce de tomate.
Em contrapartida todos os anos, e sempre por esta altura, recebia doce feito pela minha mãe, que continuava a cumprir o ritual do doce de tomate.
Em troca dava-lhe doce de figo que, nestes últimos anos, aprendi a fazer com minha amiga Carla.
"Ai filha, esse doce eu não consigo fazer" - dizia-me a minha mãe com o seu sorriso envergonhado.
E eu inconscientemente e de uma forma quase mecânica, respondia-lhe que não fazia mal porque eu fazia para nós as duas.
Estava enraizada esta troca e estou certa que nenhuma de nós as duas, se apercebeu disto.
Apercebi-me desde enraizamento, quando ele deixou de existir.
Quando estas raízes e estas pequenas rotinas que nós uniam foram quebradas. Quando senti que por esta altura do ano e ao contrário de todos os anos anteriores, não haveria doce de tomate...
E hoje, porque senti a falta do cheiro do tomate, do cheiro do caramelo, mas principalmente do seu cheiro, resolvi fechar-me na cozinha e fazer o "nosso" doce de tomate.
Aquele que eu fazia com a minha mãe quando era pequenita!
E porque o Gonçalo esteve a ajudar-me na sua confecção, fui-lhe contando emocionada tudo aquilo que acabei por escrever aqui.
Sorrimos os dois e lembramos-nos dela assim, como sempre foi, alegre, meiga, enérgica e tão doce como o doce de tomate que tinhamos acabado de fazer...
sábado, setembro 04, 2010
Se a vida fosse...
Não se acostume com o que não o faz feliz, revolte-se quando julgar necessário.Alague o seu coração de esperanças, mas não deixe que ele se afogue nelas.
Se achar que precisa voltar, volte!
Se perceber que precisa seguir, siga!
Se estiver tudo errado, começe novamente.
Se estiver tudo certo, continue.
Se sentir saudades, mate-a.
Se perder um amor, não se perca.
Se o achar, segure-o.
Fernando Pessoa
quinta-feira, setembro 02, 2010
Fearless love
When I woke up I was 17
You kissed my lips in a bad bad dream
Showed me things aren't what they appear to be
Called me angel and set me free
You gave me life in the cold cold dark
But you ran away in the mornings spark
Made me think that reality
Is not where I want to be
I am what I am and
I am what I am afraid of
Oh what am I afraid of
I need a fearless love
Don't need to fear the end
If you can't hold me now
You will never hold me again
I want to live my life
Pursuing all my happiness
I want a fearless love
I won't settle for anything less
I've walked my path had worlds collide
I lost my way and I fooled my pride
This lover's ache wouldn't feel so strange
If I could only change
But I am what I am and
I am what I am afraid of
So what am I afraid of
I need a fearless love
Don't need to fear the end
If you can't hold me now
You will never hold me again
I want to live my life
Pursuing all my happiness
I want a fearless love
I won't settle for anything less
Now I'm not here to lay the blame
I understand when you hold a flame
Heads will shake heads will turn
And sometimes you just get burned
quinta-feira, agosto 19, 2010
um olhar, por agora...
todos os suspiros por mais um segundo
todos os sussurros de não partirei
todos os momentos de eterno
toda a vida num só grito
toda a eternidade num toque
todo o silêncio numa melodia de manhã de primavera
todo o começo e todo o fim num sorriso
toda a cor numa flor entregue sem nome
toda a luz num céu limpo de nuvens
tudo se cristaliza num olhar apenas
aquele que vem de onde nascem as fontes mais puras
aquele olhar onde nasce o mundo para mim
e em mim
fechemos os olhos
agora
domingo, agosto 15, 2010
hand me down, matchbox twenty
(I know...
You don't have to say a word...)
Someday they'll find your small town world
On a big town avenue
Gonna make you like the way they talk
When they're talking to you
Gonna make you break out of your shell
Cuz they tell you to
Gonna make you like the way they lie
Better than the truth
They'll tell you everthing
You wanted someone else to say
They're gonna break your heart, yeah
From what I've seen
You're just one more hand me down
Cuz no one's tried to give you
What you need
So lay all your troubles down
I am with you now
Somebody oughta take you in
Try to make you love again
Try to make you like the way they feel
When they're under your skin
Never once do you think that they would lie
When they're holding you
Then you wonder why they haven't called
When they said they'd call you
You'll start to wonder
If you're ever gonna make it by
You'll start to think
You were born blind
From what I've seen
You're just one more hand me down
Cuz no one's tried to give you
What you need
So lay all your troubles down
I am with you now
I'm here for the hard times
The straight to your heart times
When living ain't easy
You can stand up against me
And maybe rely on me
And cry on me, yeah
Oh no, no, no
Someday they'll open up your world
Shake you down to the drawing board
Do their best to change you
They still can't erase you
From what I've seen
You're just one more hand me down
Cuz no one's tried to give you
What you need
So lay all your troubles down
I am with you now
Lay them down on me
You're just one more hand me down
And all those nights don't give you
What you need
So lay all your troubles down
On me
quinta-feira, agosto 12, 2010
quando o mar era azul, como o futuro...
Eram as férias de Verão e acordávamos cedo, demasiado cedo para a época do ano... Só uma coisa nos fazia acordar antes do meio-dia, nas férias, em pleno Agosto: a praia!
Garotas adolescentes, muito responsáveis já, estávamos um dia inteiro fora de casa, por nossa conta, sem pais por perto... E às 8h da manhã, lá nos encontrávamos, na paragem da camioneta... Esta levava pessoas para a praia, desde a aldeia em que vivíamos até Leça. Agora é uma vila, naquele tempo ainda era aldeia, e Leça ficava muito longe... Quase uma hora de caminho... Regressavamos às 18h. Era um dia passado à beira-mar, livremente, sem restrições nem regras, excepto as que guardávamos na nossa cabeça e cumpríamos escrupulosamente. O protector de vez em quando, a bandeira vermelha, as horas depois de comer sem ir à água e pouco mais...
Ao lembrar agora aqueles dias, nem posso acreditar que não saía da água gelada todo o dia. Fazia apenas um intervalo para comer e cumprir as três horas da digestão, para logo a seguir entrar nas águas gélidas do Atlântico e lá ficar a mergulhar até os lábios se tornarem roxos e deixar de sentir as mãos e os pés, com a pele enrugada e branca. O mar do Norte continua assim, gelado, todo o ano. Naquela altura, a água não me parecia tão fria, excepto ao entrar.
E fazíamos amigos, e conversávamos e ríamos e jogávamos às cartas e voltávamos para casa, tendo gasto apenas 20 escudos num gelado, não todos os dias, só às vezes. Era um tempo em que uma criança era feliz com um gelado...
Nesse tempo longínquo das minhas memórias, lembro que me sentia feliz nesses dias de Verão e quando a minha cabeça voava para longe, normalmente na viagem de regresso, sentada nos assentos gastos da camioneta velha da empresa onde o meu pai trabalhava (por isso não pagávamos bilhete e só por isso podíamos ir todos os dias), a minha cabeça levava-me para um futuro muito azul, muito mais feliz, muito cheio de tudo e cheio de alegrias. O meu pensamento, que já naquela altura não conseguia ser domado, levava-me para praias exóticas, com gente muito bonita e rica, com cocktails a serem servidos a gosto, com areias brancas e extensas, com palmeiras e mares muito azuis de águas quentes...
Nesse tempo, nesses dias em que eu era feliz só por olhar o futuro com um mar mais azul do que este onde estou hoje, eu pensava a vida com cores que o pintor da criação talvez ainda não tivesse na sua paleta.
Por isso, hoje, nesta praia de enorme areal e neste mar de águas mornas eu recordo o Verão da minha adolescência e dá-me vontade de dizer àquela menina de então que continue a sonhar, que continue assim, ingénua, a pensar o futuro com um mar muito azul e com cores ainda por descobrir...
quinta-feira, julho 29, 2010
Madrid?... No me encanta...
Madrid poderia ser tanta coisa...
Mas foi apenas mais uma cidade, nem por isso fascinante, nem sequer apaixonante... Cidade de grande diversão nocturna, cosmopolita, descontraída, não fossem as pessoas, os nativos, os Espanhóis mesmo, pouco simpáticos, mal encarados, pouco hospitaleiros, desagradáveis, estragarem grande parte daquilo que poderia até ser uma cidade europeia algo bonita...
Os jardins são o que de melhor a cidade oferece, belíssimos, sobretudo o Parque Del Retiro e Casa de Campo. Os monumentos são únicos (não fosse a Espanha a terra natal de grandes nomes da pintura e escultura). A arquitectura não impressiona, nem mesmo os edifícíos da Gran Via, zona moderna e ampla, se tivermos em mente as avenidas de Paris repletas de luz e a imponência das construções londrinas nas margens do rio Thames. Os Museus são interessantes (mas Paris e Londres ficaram com o melhor... temos pena!)...
A comida tradicional resume-se a tapas, bocadillos, tortilla e... pouco mais, sempre acompanhada de pão duro, pobreza gastronómica que enjoa os visitantes e surpreende os turistas que procurarem ingerir o mesmo tipo de comida que os nativos, durante vários dias. E a água engarrafada é literalmente desconsolada e sem sal...
E a noite? A famosa noite madrilena? Para a maioria dos jovens que não podem gastar 50 euros ou mais para se embebedarem nos bares e discotecas da cidade, a noite inicia-se cedo e passa por começarem a beber por altura da siesta, a meio da tarde. Vê-se grupos de jovens com garrafas de whisky, rum, vodka e cerveja, deitados à sombra das árvores dos frondosos jardins do centro da cidade e a maratona etílica continua até de madrugada, acompanhada de outras substâncias ainda mais excitantes (?). À noite, para gáudio dessa juventude alienada, há chineses, indianos e outros imigrantes a venderem cerveja a 1 euro, bem fresca nas ruas e jardins... A cerveja, que num bar custa 5 euros, é recebida de braços abertos.
Nos bares, a droga circula quase livremente... Algo que nunca tinha visto na noite do Porto ou em Braga ou noutras cidades. Os que já estão mais "alegres" metem conversa e oferecem um charro de marijuana, uma linha de coca, só para socializar, para fazer "amigos"... A surpresa é total quando mostro o meu copo de Ginger Ale e digo que não fumo, logo, muito menos consumo dessas substâncias psico-trópicas... (Devo ser extra-terrestre!) Nem me dou ao trabalho de explicar que tenho outras formas muito mais saudáveis de ficar zen, mas entristeceu-me o olhar vazio da juventude que a cidade absorve e destrói, lentamente, sem eles darem por isso...
Coisas boas: os Portugueses que por lá se encontram; o tinto de verano (sangria), a música latina que sempre me apaixonou, nos bares dedicados à mesma; o calor e o sol, as árvores, os lagos e os jardins e o mercado de domingo, o El Rastro! Ah, e uma ópera de Verdi com Plácido Domingo no Teatro Real ouvido e acompanhado num écran no Jardim Real, no lado de fora do teatro, sentados na relva, seguida de 27 minutos de palmas consecutivas na presença da Reina Sofia e um espectáculo de flamenco, de nome Carmen, com bailarinos profissionais.
Saudades de Madrid? Talvez... Lá para os setenta, quando já não me lembrar bem do que vi e senti...
quarta-feira, julho 14, 2010
Lágrimas na minha alma

Faz hoje um mês que estivemos juntas pela última vez. Que te beijei, que me despedi com a promessa de voltar no dia seguinte. Abanaste a cabeça em sinal afirmativo.
Mas não houve amanhã …
Faz hoje um mês que uma parte de mim morreu. Morreu e eu de mãos atadas nada pude fazer para te salvar.
Faz hoje um mês que te trago a cada instante no meu pensamento.
Faz hoje um mês que percebi o significado de para sempre, do eternamente, do nunca mais, da injustiça e da crueldade.
Faz hoje um mês que caminho para o cemitério na ilusão de te encontrar, de te sentir mais perto.
Faz hoje um mês que as saudades crescem a um ritmo alucinante no meu peito.
Faz hoje um mês que as nossas conversas silênciosas, os nossos olhares cúmplices, tiveram um fim.
Faz hoje um mês que há lágrimas na minha alma.
Mas não houve amanhã …
Faz hoje um mês que uma parte de mim morreu. Morreu e eu de mãos atadas nada pude fazer para te salvar.
Faz hoje um mês que te trago a cada instante no meu pensamento.
Faz hoje um mês que percebi o significado de para sempre, do eternamente, do nunca mais, da injustiça e da crueldade.
Faz hoje um mês que caminho para o cemitério na ilusão de te encontrar, de te sentir mais perto.
Faz hoje um mês que as saudades crescem a um ritmo alucinante no meu peito.
Faz hoje um mês que as nossas conversas silênciosas, os nossos olhares cúmplices, tiveram um fim.
Faz hoje um mês que há lágrimas na minha alma.
quinta-feira, julho 08, 2010
terça-feira, julho 06, 2010
O valioso tempo dos maduros

Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente do que já vivi até agora.
Tenho muito mais passado do que futuro.
Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas.
Tenho muito mais passado do que futuro.
Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas.
As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos.
Detesto fazer acareação de desafectos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário-geral do coral. 'As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos'.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa...
Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade, Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade, O essencial faz a vida valer a pena.
E para mim, basta o essencial!
Mário de Andrade (1893-1945)
sexta-feira, julho 02, 2010
Eu acreditava...
"Eu acreditava mesmo que o amor é o sangue do sol dentro do sol. A inocência sincera de desejar que o céu compreenda. Eu acreditava que se levantam tempestades frágeis e delicadas na respiração vegetal do amor. Como uma planta a crescer da terra. O amor é a luz do sol a beber a voz doce dessa planta. Algo dentro de qualquer coisa profunda. Eu acreditava que o amor é o sentido de todas as palavras impossíveis."
Assim escreve José Luís Peixoto em "Uma Casa na Escuridão"
Quem não fica com vontade de ler um escritor assim?...
(Eu também acreditava que o amor era o sentido de todas as palavras impossíveis. E ainda acredito!)
terça-feira, junho 29, 2010
Passados estes anos todos o Principezinho continua sem crescer e a sonhar agarrado às estrelas que cativou.
Também eu continuo agarrada às minhas estrelas que me guiam e mesmo que, de vez em quando, descubra que uma delas é uma estrela cadente continua a ser minha. Deixo-a solta para seguir esse caminho diferente do meu percurso mas continuo a senti-la parte de mim: "somos responsáveis pelo que cativamos" Antoine de Saint-Exupéry.
Continuo o meu sonho e a viagem continua a ser iluminada pelo brilho das estrelas que deixei que me cativassem.
sábado, junho 26, 2010
Os rebuçados da Avó
A Avó faz o almoço e chama todos para lá irem. Todos não, telefona às filhas (" E tragam os meninos! Fiz canja para o Afonso"). O filho ainda lá vive, não é preciso chamar... A Avó anda sempre acelerada, de um lado para o outro a ver se todos comem, se todos têm arroz ou um pedaço de lombo, ou salada, ou se falta pão, ou se o copo está cheio. Sempre acelerada. Tem artrozes nos ossos quase todos, mas anda sempre cheia de pressa, sempre atarefada. Quase não se senta e quando o faz levanta-se a custo. As articulações estão presas, as dores estão instaladas. Mas nem por isso abranda. E sai a sopa e sai o arroz e o assado e logo a seguir a sobremesa. Tem o hábito de descascar a fruta, porque a filha mais nova não come se não for assim (a filha mais nova é a mãe do Afonso que já passou dos 35 mas continua preguiçosa para comer, tal como o filho). A mais velha não precisa que descasque a fruta. Sempre comeu bem a fruta e os legumes. A mais nova não, essa consumiu-lhe sempre a cabeça com as esquisitices para comer. O Afonso também é assim, por isso, em casa da Avó quase só come canja. A canja da Avó é diferente, é melhor que as outras. Eu também acho que a canja é melhor e a sopa também. E o assado tem um sabor especial, porque a Avó deixa o assado cozinhar devagarinho e os sabores misturam-se e fica tudo mais apurado... A Avó não gosta de carne, por isso muitas vezes come sopa, legumes, arroz, batatas e ri-se, porque nem sempre lhe apetece peixe e nós rimo-nos, porque ela está sempre a dizer "Tira mais carne, está tenrinha, olha, olha como está boa!". Ela que nem a provou sabe que a carne está boa. E está mesmo! E para o Edgar é o frango, o peito, que o rapaz só gosta de carne branquinha e sem ossos...
"Avó, onde estão os rebuçados?", pergunta ele. Há uma lata dentro do velho armário que tem sempre guloseimas. O neto mais velho sabe. A Avó tem sempre rebuçados. E no final do almoço a lata aparece e de lá de dentro rebuçados de mil cores surgem nas mãos da avó que os espalha na mesa, com um sorriso no rosto! E antes de ir embora, enche os bolsos ao neto com mais alguns para o caminho! "Só em casa da Avó é que há rebuçados destes!"
domingo, junho 20, 2010
A promessa
Hoje fui à tua missa do 7º dia.
Bem sabes que não gosto de missas, padres e igrejas.
Bem sabes que não acredito em Deus.
Bem sabes que só creio nos homens e nas suas capacidades de mover o mundo. De o fazer girar.
Tenho a certeza, que onde quer que estejas, os teus lindos olhos azuis não puderam deixar de sorrir, ao ver-me ali.
Sorrir alias, como sempre fizeram quando me viam. Um sorriso sincero, puro, doce, meigo e generoso. O sorriso de quem ama. O sorriso de uma mãe.
O teu sorriso! Indescritível, único e inigualável …
Sei que sabes que neste último mês mudei. Para melhor.
Que chorei em todo lado sem vergonha nem reservas, que me abracei, em busca de consolo a quem nem sequer conhecia.
Que sorri entre amigos, lavada muitas vezes em lágrimas. E também sabes que até pedi a Deus, a esse teu Deus em que acreditavas que me fizesse um milagre.
O milagre da vida. O milagre da salvação. O milagre que nunca chegou.
Sei que sabes que a dor nos muda, nos torna maiores, melhores e mais misericordiosos.
Connosco e com os demais.
Sei que sabes, melhor que ninguém que a vida, ao contrário do que eu supunha, não é um dado adquirido. Deve ser vivida na sua plenitude.
Confessaste ao pai que eu era a única pessoa a quem não conseguias dizer que ias partir.
Dizias que eu não aceitava. É verdade mãe. Não aceito!
Percebi, naquele dia em que me agarraste a mão que pretendias passar-me essa mensagem:
“Filha, desde pequena que sempre foste uma rapariga corajosa. E eu espero que tu nunca percas essa coragem.”
O meu coração estrangulado respondeu-te que sim.
E prometo continuar a sê-lo, mãe!
Por ti.
Por mim.
E por todos nós.
Bem sabes que não gosto de missas, padres e igrejas.
Bem sabes que não acredito em Deus.
Bem sabes que só creio nos homens e nas suas capacidades de mover o mundo. De o fazer girar.
Tenho a certeza, que onde quer que estejas, os teus lindos olhos azuis não puderam deixar de sorrir, ao ver-me ali.
Sorrir alias, como sempre fizeram quando me viam. Um sorriso sincero, puro, doce, meigo e generoso. O sorriso de quem ama. O sorriso de uma mãe.
O teu sorriso! Indescritível, único e inigualável …
Sei que sabes que neste último mês mudei. Para melhor.
Que chorei em todo lado sem vergonha nem reservas, que me abracei, em busca de consolo a quem nem sequer conhecia.
Que sorri entre amigos, lavada muitas vezes em lágrimas. E também sabes que até pedi a Deus, a esse teu Deus em que acreditavas que me fizesse um milagre.
O milagre da vida. O milagre da salvação. O milagre que nunca chegou.
Sei que sabes que a dor nos muda, nos torna maiores, melhores e mais misericordiosos.
Connosco e com os demais.
Sei que sabes, melhor que ninguém que a vida, ao contrário do que eu supunha, não é um dado adquirido. Deve ser vivida na sua plenitude.
Confessaste ao pai que eu era a única pessoa a quem não conseguias dizer que ias partir.
Dizias que eu não aceitava. É verdade mãe. Não aceito!
Percebi, naquele dia em que me agarraste a mão que pretendias passar-me essa mensagem:
“Filha, desde pequena que sempre foste uma rapariga corajosa. E eu espero que tu nunca percas essa coragem.”
O meu coração estrangulado respondeu-te que sim.
E prometo continuar a sê-lo, mãe!
Por ti.
Por mim.
E por todos nós.
As palavras são eternas... o corpo, não... RIP José Saramago
“Por que foi que cegámos, Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que veem, Cegos que, vendo, não veem”
“O medo cega, disse a rapariga dos óculos escuros, São palavras certas, já éramos cegos no momento em que cegámos, o medo nos cegou, o medo nos fará continuar cegos, Quem está a falar, perguntou o médico, Um cego, respondeu a voz, só um cego, é o que temos aqui.”
“Lutar foi sempre, mais ou menos, uma forma de cegueira, Isto é diferente, Farás o que melhor te parecer, mas não te esqueças daquilo que nós somos aqui, cegos, simplesmente cegos, cegos sem retóricas nem comiserações, o mundo caridoso e pitoresco dos ceguinhos acabou, agora é o reino duro, cruel e implacável dos cegos, Se tu pudesses ver o que eu sou obrigada a ver, quererias estar cego, Acredito, mas não preciso, cego já estou, Perdoa-me, meu querido, se tu soubesses, Sei, sei, levei a minha vida a olhar para dentro dos olhos das pessoas, é o único lugar do corpo onde talvez ainda exista uma alma (...)”
José Saramago, Ensaio sobre a cegueira
terça-feira, junho 15, 2010
Luto
Hoje o dia amanheceu de LUTO...
Hoje o nosso coração chora contigo, Mimi...
Hoje o céu ganhou mais um anjo
Hoje o dia tem lágrimas e saudade e a certeza que não acabamos aqui
Hoje sabemos que na próxima vida estaremos juntos de novo
E que a tua MÃE faz parte das estrelas que nos iluminam à noite
Hoje o nosso coração chora contigo, Mimi...
Força, coragem e um abraço apertado com toda a nossa amizade e amor por TI...
sexta-feira, junho 11, 2010
terça-feira, junho 08, 2010
segunda-feira, junho 07, 2010
Da Gente que Eu Gosto
Eu gosto de gente que vibra, que não tem de ser empurrada, que não precisa que se lhe diga que faça as coisas, mas que sabe o que tem que fazer.E faz.
Gente que cultiva seus sonhos até que esses sonhos se apoderam de sua própria realidade.
Gosto de gente com capacidade para assumir as consequências das suas ações, de gente que arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho, que se permite abandonar os conselhos sensatos, deixando as soluções nas mãos de Deus.
Gosto de gente que é justa com sua gente e consigo mesma, de gente que agradece o novo dia, as coisas boas que existem em sua vida, que vive cada hora com ânimo, dando o melhor de si, agradecida por estar viva, por poder distribuir sorrisos, de oferecer suas mãos e ajudar generosamente sem esperar nada em troca.
Gosto de gente capaz de me criticar construtivamente e de frente, mas sem me lastimar ou me ferir.
De gente que tem tacto.
Gosto de gente que possui sentido de justiça.
A estes chamo de meus amigos.
Gosto de gente que sabe a importância da alegria e a practica.
De gente que por meio de piadas nos ensina a conceber a vida com humor.
De gente que nunca deixa de ser animada.
Gosto de gente que nos contagia com sua energia.
Gosto de gente sincera e franca, capaz de se opor com argumentos razoáveis a qualquer decisão.
Gosto de gente fiel e persistente, que não descansa quando se trata de alcançar objetivos e ideias.
Encanta-me a gente com critérios, que não se envergonha em reconhecer que se equivocou ou que não sabe algo.
De gente que, ao aceitar seus erros, se esforça genuinamente por não voltar a cometê-los.
De gente que luta contra adversidades.
Gosto de gente que busca soluções.
A sensibilidade, a coragem, a solidariedade, a bondade, o respeito, a tranquilidade, os valores, a alegria, a humildade, a fé, a felicidade, o tacto, a confiança, a esperança, o agradecimento, a sabedoria, os sonhos, o arrependimento, e o amor para com os demais e consigo próprio são coisas fundamentais para se chamar GENTE.
Mario Benedetti
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