
Presa num lençol abandonado, analiso os devaneios dos últimos momentos.
Emprestei aos meus sentidos um véu de cores, sabores e toques que me enlouqueceram. Só posso analisar o que aconteceu desta forma.
A cor desse olhar deteve-se no meu, apagado, desvanecido, deslavado, amarelado e traçou um caminho de pétalas esvoaçantes, perdidas ao vento, neuróticas, tresloucadas de tons quentes e mornos que enlevaram as minhas pupilas sedentas de horizonte e arco-íris.
O travo dessa boca agridoce tropeçou no rumor de sabor que saiu de mim, desgovernado, provocante e encantador, para deliciar momentos perdidos e tentadores.
O toque urgente dessa mão superou o receio inicial e entregou-se ao veludo perplexo do aconchego interior, que inaugurou o momento sublime do encontro alucinado.
Alucinação e loucura. Foi o que foi. Porque não te mexeste, não me olhaste, não me sorriste, não me tocaste. A mim é que me pareceu que sim. Para mim tudo foi real, porque padeço, enfim, de uma doença tremenda, avassaladora e, para o sujeito que a carrega, inaceitável e jamais reconhecida: a loucura.
Claro, só posso estar louca, só posso ter estado demente por longos momentos, pois nada restou de ti que prove ao meu espírito lúcido que foste real. Não sei como cristalizei na fugacidade do instante as sensações que me invadiram a aridez da alma e dos sentidos. Parece-me, agora, que isso só aconteceu porque ensandeci involuntária e temporariamente.
De regresso ao mundo insólito e objectivo, pude perceber que nunca exististe senão na minha mente cansada e deprimente.
Porque a loucura pode ser um paliativo e um escape à vida sedimentada em regras e imposições, constrangimentos e cadeados.
Dizem-me que libertar-me dessas regras, isso sim, seria uma verdadeira loucura. Porém, eu imagino que viver com elas a aprisionar-nos a alma é que nos tornará patetas acomodados e estéreis a fingirmo-nos de felizes, resignados com a ordem das coisas e com a mediocridade da lucidez.