segunda-feira, janeiro 17, 2011

Admiração

Donde vem essa força que trazes?
Só daí mesmo.
Dessa capacidade ou dom que foi dado ao teu ser de seres também tu resiliente.
Não foi no meio de livros que crescente,
nunca te foi lida uma história para adormeceres
mas hoje lês as histórias como ninguém
enches cada frase de ti
colocas as palavras no sitio certo e escreves com o sentir
não foi por te ser dado esse caminho que hoje o percorres lá de cima
carregando cada frase de sentido e vida
não cresceste no meio de sonatas, serenatas, sinfonias ou concertos de musica clássica e erudita
nem te foi mostrado o mundo em viagens mesmo que imaginárias
mas nada disso te mutilou o desejo inconsolável pela descoberta e pelo saber
nada disto retirou sensibilidade para viveres um poema e enterneceres todo o teu ser numa palavra.

Adoro-te mana do meu coração.
Este é só um pedacinho do todo que admiro em ti.

Há sempre uma primeira vez

Em 6 anos, hoje, foi a primeira vez que o meu tesouro jantou tudo sozinho!!
Estou mesmo muito feliz! Nem queria acreditar quando me mostrou o prato vazio e com tanta alegria minha - nem imaginam a festa que fiz - foi escolher a sobremesa e de novo, sozinho, comeu tudo!!
Afinal é mesmo verdade: há sempre uma primeira vez!
Pode parecer ridícula a minha felicidade mas para quem todos os dias destes 6 pequenos anos teve que "criar" algum motivo para o fazer comer o essencial, hoje foi mesmo um jantar diferente.
Agora conto-vos o resto dos detalhes:
- primeiro escolheu o filme que queria ver. Adivinhem?
O Dragon ball Z- a força suprema.
Foi preciso uma força suprema para este facto acontecer. No final só dizia: a mãe está tão feliz!! E estou mesmo.
Há pequeninas coisas para uns que têm um significado enorme para outros.

quinta-feira, janeiro 06, 2011

Mario Vargas Llosa - Prémio Nobel da Literatura 2010

"Há coisas que se dizem com as palavras, outras só com lágrimas."

quarta-feira, janeiro 05, 2011

If time is all I have...



When you're older
The memories fade
But I know I'll still feel the same
For as long as I live

E há sempre uma forma de dizer o sentimento como se fosse uma roupa nova, acabada de estrear, como se fosse um vestido de cetim macio, suave, que toca a pele quase sem se sentir, mas que permanece agarrado a ela sem se notar.
Há sempre uma forma nova de dizer o antigo, um sentimento eterno que aconchega como um pijama quente em algodão puro a acalentar a alma deserta.
E se o tempo for tudo o que me resta, então será para isso... também.

quinta-feira, dezembro 23, 2010

Adagio




Non so dove trovarti
Non so come cercarti
Ma sento una voce che
Nel vento parla di te
Quest' anima senza cuore
Aspetta te
Adagio

Le notti senza pelle
I sogni senza stelle
Immagini del tuo viso
Che passano all' improvviso
Mi fanno sperare ancora
Che ti trovero
Adagio

Chiudo gli occhi e vedo te
Trovo il cammino che
Mi porta via
Dall' agonia
Sento battere in me
Questa musica che
Ho inventato per te
Se sai come trovarmi
Se sai dove certami
Abbracciami con la mente
Il sole mi sembra spento
Accendi il tuo nome in cielo
Dommi che ci sei
Quello che vorrei
Vivere in te

Il sole come sembra spento
Abbracciami con la mente
Smarrita senza di te
Dommi chi sei e ci credero
Musica sei
Adagio

Será possível melhor?...
Quatro homens assim, a cantar desta maneira?...

terça-feira, dezembro 21, 2010

All I want for Christmas!...



Musiquinha leve para animar este blogue que anda um pouco tristonho, com uma Mariah Carey ainda sem airbags e muito gira!

Eu até explicava melhor... O que quero para este Natal e tal, mas, como diz um primo que eu gosto muito: fica assim!...

sexta-feira, dezembro 17, 2010

Esperança

Acorda todos os dias com uma esperança.
Com a esperança que o dia de hoje seja melhor que o de ontem e pior que o amanhã.
Inventa maneiras de superar aquilo que sente.
Um vazio e uma dor como nunca antes sentira...
Todos lhe dizem que é forte e que o tempo, esse bendito, apaga tudo, suaviza e ajuda a aceitar e a entender aquilo que hoje não tem qualquer explicação.
Não acredita,ouve, mas não responde.
Sente-se amputada todos os dias. Parte de si morreu e debate-se por seguir em frente com essa limitação.
E engole em seco muitas vezes durante o mesmo dia. E chora em silêncio outras tantas.
Por um cheiro, por uma expressão, por uma memória, mas principalmente pela saudade.
Nunca gostou que os outros sentissem pena dela, que os olhares lhe recaíssem.
E por isso mesmo não fala do assunto com ninguém a não ser com ela própria.
Até porque já nada há para dizer e já ninguém a pode ajudar.
É definitivo,sem solução,sem retorno. Para sempre.
Perguntam-lhe diversas vezes o que queria este Natal.Apática, responde sempre o mesmo: nada...
Porque o seu desejo mais profundo era tão somente colocar mais um prato na mesa... e esse desejo, nem a estrela mais iluminada deste Natal, lhe irá conceder.

quinta-feira, dezembro 16, 2010

conto de Natal - epílogo



No dia de Natal, todos dormiram um pouco mais. Tudo passa, até a noite de Natal. A noite, afinal, fora curta.
Jantaram tarde. A mãe estava cansada, mas fez as batatas cozidas com o bacalhau. E havia bolo-rei e rabanadas e formigos. Os pais zangaram-se, como de costume, e depois da meia-noite as filhas receberam uma camisola rosa bebé, em algodão, que usariam quando fossem à missa. As camisolas eram iguais, mas de tamanhos diferentes. Lisas, da mesma cor e iguais. A mãe comprava muitas vezes roupa assim. Igual para as duas. Os pais não recebiam presentes. Por isso, o ritual de rasgar embrulhos era rápido. O pai saiu, a mãe foi dormir e as filhas viram um pouco de televisão no único canal que existia na altura. E havia um aperto no coração, uma esperança frustrada de que a imaginação não tivesse falhado tanto.
Cada um no seu mundo, viveu um Natal diferente. O do pai teria sido mais animado, o da mãe bem mais triste, o da irmã mais nova intenso, gravando cada segundo na memória para nada esquecer, para guardar dentro de si aquilo que quereria tanto apagar ao longo da vida e o da filha mais velha teria sido inventado, imaginado na sua cabeça, bem diferente do que era, alienado pelo poder da criação que tantas vezes a levaria para lugares recheados de cor e alegria, repletos de afecto e iluminados pelo calor de um abraço.
Tudo passa, tudo acaba, até a noite de Natal.

segunda-feira, dezembro 13, 2010

conto de Natal... ainda


Na véspera de Natal, o presépio era o mesmo. As palhinhas da manjedoura onde o menino Jesus estava deitado também tinham sido coladas. Estavam a desprender-se. O pai colara-as nessa semana, enquanto as duas tinham ido arrancar musgo aos muros para arranjar o presépio. Depois, quiseram levar ao mesmo tempo o menino Jesus para a sala e durante a bulha, deixaram-no cair nas escadas. Dizem que o pai ralhou muito e lhes bateu. A mais velha não se lembra. A mais nova garante que foram umas palmadas pesadas. A mão do pai sempre foi de temer. Raramente batia, mas quando o fazia ninguém mais esquecia. Excepto, talvez, a filha mais velha que costuma esquecer quase tudo. Nunca mais voltaria a procurar musgo, depois de sair da casa dos pais. O presépio não voltaria a ter peças coladas e as luzes não estariam fundidas. Haveria de ser tudo diferente.
Na véspera de Natal, acordou cedo com o cheiro da comida adiantada. A mãe fora trabalhar e chegaria de noite. O pai trabalhava sempre, todos os dias do ano, excepto no dia de Natal e de Ano Novo, porque saía a seguir ao jantar para tocar as Boas Festas e regressava já quase a raiar o dia. Raramente tinham folgas, naquele tempo. A mãe deixava sempre o almoço feito, ou quase, antes de ir trabalhar, mesmo que tivesse de estar na paragem da camioneta às 7h da manhã. O cheiro a sopa, a calda para o arroz, véspera de Natal…
Ela costumava meter a roupa debaixo dos cobertores para a aquecer antes de se vestir. Mais tarde, a mãe compraria um aquecedor que ficaria no quarto das filhas para elas poderem estudar na cama, quando o frio era muito. Depois, quando o filho mais novo nascesse também teria um aquecedor. A filha mais velha não se lembra de haver um aquecedor no quarto nos pais.
“Só tens de acrescentar o arroz e deixar cozer. O pai não vem almoçar. Mãe.”, dizia o recado escrito por ela, deixado em cima da mesa. Assinava sempre Mãe, nunca se entendeu porquê. Só a mãe escrevia recados, só tinham aquela mãe, só as filhas os liam, como poderia haver engano?…
Estava habituada a acabar de cozinhar as refeições e sabia que tinha de limpar a casa com a irmã, nesse dia. Afinal era Natal. Limpariam tudo e quando a mãe chegasse fariam rabanadas e formigos. O pai gostava de rabanadas de vinho e a mãe fazia sempre um prato à parte só para ele. Mais ninguém as comia. Agora a mãe já não faz rabanadas de vinho. Agora a mãe está reformada e tem tempo, mas não as faz. Faz os formigos que a filha mais velha pede e a mãe sabe que gosta. Agora a mãe só quer agradar aos filhos. Antes estava sempre triste e gostava também do pai. E a filha mais velha pedia baixinho ao menino Jesus, antes de dormir, para que a mãe não se zangasse e o pai não ameaçasse de bater.
A mãe chegou cansada, já de noite e o pai tardou em chegar, nesse dia também.

…continua…

sábado, dezembro 11, 2010

conto de Natal



Não conseguia adormecer. No dia seguinte era véspera de Natal e a sua cabeça imaginava tanta coisa. Deitada na cama com quatro cobertores em cima, olhava o tecto manchado de negro pela humidade. Uma mancha parecia-lhe um rosto de um homem a gritar, outra mais abaixo parecia um novelo de lá cinzenta, à esquerda estava um girassol, curvado, como que a murchar. A irmã mais nova deitava-se do lado da janela, do seu lado esquerdo. Ela ficava do lado da porta, porque queria guardar o quarto, proteger a irmã de gatunos imaginários. Mais tarde compreenderia porque é que se habituara assim, porque é que escolhia ficar sempre desse lado da cama…
A sua cabeça imaginava e não a deixava dormir. Imaginava que no dia seguinte a mãe não iria trabalhar e iria fazer a ceia de Natal sem pressa, que o pai não iria tocar as Boas Festas com os amigos e com os irmãos, até de manhã, fazendo a mãe zangar-se durante uma semana, durante meses, durante toda a vida. Imaginava que o pai não iria implicar com tudo e que a mãe não iria gritar com elas, as filhas, com ele, com todos. Imaginava que haveria dinheiro suficiente para comprar presentes, que a mãe estaria menos triste e que o pai estaria menos ausente. Imaginava que viviam numa casa aquecida e com móveis bonitos e que teria roupa nova no sapatinho. Imaginava uma enorme árvore de natal e um presépio novo, com peças de porcelana brilhante e macia. Imaginava que o menino Jesus estaria intacto e não colado e com a face desfigurada.
Acabou por adormecer e, no dia seguinte, na véspera de Natal, correu a ver o presépio…

...continua...

segunda-feira, novembro 29, 2010

Utopia



Porque há músicas certas para determinados momentos.

quinta-feira, novembro 25, 2010

O AMOR

Comovo-me por demais sempre que os sinais do Amor me surgem diante dos olhos.
Esse mesmo, esse único que mesmo sabendo que não o consigo descrever em palavras sinto-o, vejo-o e vivo-o.
Basta-me uma centelha dessa luz para logo identificar: é isto mesmo! Isto é o AMOR.
Espreitem e digam-me se sentem o mesmo que eu.
http://vimeo.com/16473738
http://videos.publico.pt/Default.aspx?Id=5f0bddf4-86d7-4d3c-a286-3cc221e2ff27

terça-feira, novembro 23, 2010

As meias

Os dias começaram a arrefecer. Rápido demais para o meu gosto e para os meus sentidos.
Bastou dizer isto à mãe para ela prontamente resolver o meu problema."Eu faço-te umas meias quentinhas, queres?"
E, sem meias medidas, as meias apareceram prontas."Vê lá se estão bem para eu poder ajustá-las se for o caso". E lá me explicou como se faz quando o tamanho não está certo.
Tudo deveria ser assim de fácil resolução.
- Não serve? Traz cá que eu ajeito. Desmanchas aqui deste lado e acrescentas ou retiras o que for preciso. Deveria ser assim.
Sei que a minha mãe faz assim com quase tudo. Só não ajeita aquilo que é para uso dela pois para ela está sempre bem.
Mas não foi preciso. As meias estão perfeitas e bem feitinhas tanto pelo direito como do avesso. A minha mãe ensinou-me o que é a perfeição assim desta forma simples:
- Viras do avesso e está igualzinho ao direito. Se não for assim é coisa de gente trapalhona.
Eu diria antes que se não for assim é de gente trapalhona e que vive de aparências e apenas repara no que se vê pelo lado direito das coisas.
Certinhas no tamanho, com os detalhes de acabamento para não fugirem pelos pés (tantas coisas que gostava que saissem pelos pés!).
Estava gelada e só mesmo estas meias para me aquecerem os pés nestas noites frias que me gelam até a alma.
O carinho com que as fizeste para mim torna-as especialmente cómodas e aliviam até o que o coração ainda sente falta. Durmo com a companhia do carinho e amor de mãe.
E melhor que um par de meias só mesmo o que me deste a seguir: outro par, para que nunca durma de pés frios!

coisas boas e uns sapatos de verniz

Coisas mesmo boas: um pôr-do-sol à beira mar. Bem, não foi bem pôr-do-sol, o céu estava cinzento e as gaivotas descansavam nas rochas, indiciando tempestade no mar. Foi mais um entardecer a ver o mar revolto e a escutar a minha voz interior. Adoro estes momentos comigo. Sobretudo quando estou com bom humor e consigo aturar-me.
Outra coisa muito boa: um jantar em excelente companhia num restaurante italiano. Lasanha vegetariana e um jarro de sangria. Hummmm. Delicious… A seguir uma comédia semi-musical – “Encalhadas”! Hilariante, absolutamente fabulosa. Até tinha uma ex-miss Valongo (ou Balongo, como soar melhor). Ai como nos rimos… Se já estivesse na idade da incontinência iria ser complicado…
Para rematar a noite, outra coisa muito boa: um pé de dança num dos lugares do costume onde a música ainda é o que era. É sempre quando vou ao bar que me acontecem as abordagens imprevistas. Desta vez foi assim:
“Parabéns!” quase encostado ao meu ouvido. Despistada como sou, assustei-me. O homem tinha perto de 1.90m e riu-se. Perguntei-lhe porquê? Parabéns porquê, santa mãe de Deus… assustou-me a valer. Riu-se outra vez. “Pela sua beleza.” Encolhi os ombros e disse obrigada. Apetecia-me um vinho do Porto e não conversa da treta. Avancei em direcção ao bar. Pouco depois já na pista, de copo raso na mão (o barman foi muito simpático e encheu até transbordar) dou comigo a dançar menos para não entornar o precioso líquido e vejo o dito cujo a aproximar-se. Desta vez a tirada foi mais profunda: “Se olhar muito para si vou começar a ter de ler Braille…” AHAHAHA E ele continua: “Sim, porque ficarei cego.” Lembrei-me logo da outra frase: “És linda como o sol: nem te posso olhar de frente…” Enfim, os homens têm de passar por estes dramas em vários actos para poderem engatar. Costumo dizer que se fosse homem ia ser uma chatice. Jamais na vida faria uma ceninha destas. Iria acabar como o Clooney, solteiro aos 50. A mana diz que faria o mesmo que eles e muito pior, se fosse preciso. Eu cá, nem pensar. Sobretudo se levasse calçados uns sapatos de verniz, tamanho, digamos, 44,5 mais ou menos, e pior ainda, de bico. Sapatos de homem de bico são horrendos, segundo os meus ícones de beleza, mas mandam-me directamente para a cova se forem de verniz. O homem do Braille calçava um par deles do género. Deviam ser caríssimos, não duvido, mas perdi a compostura e desmanchei-me a rir. “É ainda mais bonita a rir, tem um sorriso lindíssimo…” Pronto, levantei-lhe a mão e disse: “Páre, não diga mais nada, por favor!” E lembrei-me da outra vez em que disse ao Italiano: “Parla, gosto de te ouvir!” Irra, sou mesmo mandona. Mas, quer um quer outro, obedeceram. É o que importa.

No dia seguinte, havia outra coisa muito boa: um convívio de família. Primos e primas que já não se viam há cerca de vinte anos, nalguns casos mais, resolveram juntar-se numa tarde gelada de Novembro à volta do churrasco e das castanhas e lembraram a infância e as brincadeiras, a juventude e as aventuras, os dramas, as alegrias, as conquistas, as lutas de cada um. Uns estavam quase na mesma, outros com uns valentes quilos a mais, outros ainda com menos cabelo, porque a testosterona circula em grandes doses na família e os homens não ficariam muito bem de cabelo comprido, se o tivessem. Os filhos de uns e outros que não conhecíamos, as contas de cabeça para adivinhar a idade de cada um. Ai como o tempo passa…

Carpe diem!… E muitas coisas boas, de preferência!

sábado, novembro 13, 2010

milk and toast and honey :)



Que saudades...
Porque é que tem de ser sempre tudo ou nada?

"... make it sunny on a rainy Saturday..."

quinta-feira, novembro 11, 2010

momentos do dia

CASTANHAS

Vinte e cinco anos. Rua do Ouro. Lisboa. Grávida de sete meses. Tarde fria de Domingo. Caminhávamos os dois pela rua e havia um cheiro delicioso a castanhas assadas no ar. Era um passeio de Domingo. Um jovem casal em 1996. Uma futura jovem mãe a sonhar com o seu primeiro filho. Uma futura mãe feliz por sentir que ia receber o seu tesouro dentro de dois meses. Que cheirinho tão bom a castanhas assadas! Compramos castanhas. A vendedora olha-me e diz: “Vai ser rapaz!” Eu sorri e disse que sim! Que bom, vai ser rapaz! Sempre quisera ter um filho rapaz! Parecia feliz…


AULA DE INGLÊS

Faltavam 20 minutos para o fim da aula numa turma de 10º ano. Estava tudo combinado. “O meu amigo está lá fora. Já tínhamos combinado, lembra-se Stôra?” Sim. Já tínhamos combinado. O miúdo tem uma banda. Quer cantar para mim, para os colegas… “Podemos, Stôra? Lembra-se de termos combinado na semana passada?” Claro que lembro. Porque não? Manda entrar o teu amigo. Disse mais duas ou três coisas em Inglês para a turma. Estávamos a falar de amizade! Best friends, boys and girls. Different types of friends… Um tema muito interessante, uma conversa muito animada. Mas a banda, a música, o miúdo giro que queria cantar para todos! Ok. Continuamos amanhã. Duas violas, três cadeiras. Dois tocam, cantam três. As letras na mão do do meio, que só canta. Os outros levantam-se e colocam-se em círculo à volta deles.
Silêncio. Começam a cantar em Inglês. A turma acompanha nos refrões. São covers de músicas muito conhecidas de todos. Vinte minutos em Inglês. Com música. “Esta é a minha canção preferida. É minha e do meu melhor amigo!”, disse-me uma miúda ao ouvido, quinze anos muito bonitos, com um enorme sorriso na cara! Sempre em Inglês, com muita amizade, cantaram até tocar para sair. Acho que foi uma boa aula sobre amizade, no dia de S. Martinho!

“The smile on your face, lets me know that you need me. There’s a truth in your eyes saying you’ll never leave me. The touch of your hand says you'll catch me wherever I fall…”

monólogos


Tímido, educado, cuidadoso.
Nem ele sabe bem explicar como é. Ela também não. Ocorrem-lhe estas palavras, mas parecem-lhe imperfeitas para o caracterizar. Sorri bastante quando fala com ela. Não é costume. É poupado em sorrisos. E avarento nas palavras. Ela enerva-se com isso. Ele diz que sofre de um problema com a tecla do “backspace”, o que o leva a hesitar, a apagar os registos quer escritos, quer falados. Volta atrás no pensamento, reformula, hesita de novo, escolhe as palavras mais uma vez, perscruta o olhar dela, reflecte de novo na escolha das palavras, tortura-se com a forma como as vai dizer. E ela aguarda. A paciência não é o seu forte. A impaciência lê-se nos olhos dela. Ele fala baixo, muito baixo. Por vezes ela não o entende. Esforça-se por ouvi-lo, mas ele não se apercebe.
“Whatever…”, diz para si mesma. “Fine…”, pensa às vezes. Ela pensa muitas vezes em Inglês. Deformação profissional. Discorre em Português e ele escuta. Por vezes ele diz coisas incompreensíveis.
“Lembro todas as roupas que ela usou, em todos os poucos encontros que tivemos.”
“Quando foi a última vez que se encontraram?”, pergunta alguém.
“ Há uns meses, mas posso dizer-lhe quantos dias passaram até hoje…”
Não fala de sentimentos. Diz que não gosta da solidão. Procura refúgio nos montes e corta sem piedade uma rosa do jardim para lhe entregar. Ela não entende, mas agradece.
Diz que falará, que lhe contará tudo. Ela não sabe o quê, nem do que é que ele está a falar. “Mas tem de ficar ao meu lado.” Outra frase incompreensível. Outro mistério. Oferece-lhe uma segunda rosa, num outro encontro fugaz; outra rosa impiedosamente cortada com a tesoura de poda do seu jardim. Diz-lhe que aquela tem um nome: chama-se rosa e ela não entende. Agradece-lhe várias coisas que ela não se apercebe de ter feito. Agradece-lhe estar melhor. E as gargalhadas que dá com ela. E ela fica feliz, porque ele sorri mais que habitualmente. E ele no fim diz “Obrigado.” E ela encolhe os ombros e pensa que nunca o entenderá. E ele diz que ela está diferente desde a última vez, o cabelo está diferente, mais encaracolado, mais comprido. Ela fica sem saber se ele gostou, se gosta mais, mas isso não parece importar. Ele pede-lhe para ela continuar assim. Ela não sabe bem como é que tem de continuar. Ela só sabe que ele fez um enorme poster com o rosto dela a sorrir, um poster a preto e branco, um retrato feito de números e ele diz que tem outro feito de palavras. Sempre o rosto dela a sorrir, para ele, para todos. Passaram dois meses, muitos dias sem vê-la. Ele diz que tinha de fazer alguma coisa. Ela dá uma gargalhada e diz-lhe que ficou confusa. Ele diz que não há confusão nenhuma, que o retrato é para lhe oferecer. E ela pensa que ele é um louco adorável e surpreendente e que nunca o entenderá.

domingo, novembro 07, 2010

O Italiano


É preciso inspiração para escrever seja o que for. Mesmo uma carta de reclamação que seja. Posso dizer que na noite passada tive a minha inspiração alimentada pela realização de um velho sonho: ter um belo Italiano a falar-me ao ouvido.
Costumava dizer como brincadeira que sonhava ter um belo ragazzo di parlare solo per me, de preferência ao ouvido. E foi o que aconteceu, sem que tenha tido necessidade de sair de Portugal, ou como no filme Eat, Pray, Love tivesse de me meter num avião e ir à procura de um tradutor em Itália onde aprenderia essa amorosa língua enquanto saboreava um saboroso gelado de café. E ele teve de me falar ao ouvido mesmo, pois a música do bar estava, como habitualmente, muito alta. Com imensa pena minha, não sei parlare a língua de DaVinci, mas fascina-me a sua musicalidade. Não me interessa muito o que é dito, desde que seja em italiano, tudo me parece romântico, até a ementa de um restaurante.
O bello Morris (espero que seja assim que se escreve o seu nome), com ar de James Dean, começou por brindar no meu copo à minha passagem. Assustei-me e afastei instintivamente o braço. Ele perguntou em Inglês:
Do you speak English?
Yes, I do. Respondi com um sorriso a meio gás. Já é costume os Ingleses virem falar comigo. Devo ter um ar… internacional.
I’m Italian. O sorriso alargou-se mais um pouco e percebi que ele já devia estar habituado a esta popularidade entre as mulheres nacionais.
Espantoso, pensei. Venho ouvir uma musiquinha revivalista num barzinho para cotas de meia idade como eu, ou mais entradotes até, e encontro… um ITALIANO! Eram vários, na verdade. Um grupo de seis ou sete, mas o Morris era o mais bonito. Muito atraente numa camisa branca desabotoada nos dois primeiros botões. Alto e… de olhos azuis. O meu Italiano, o da minha imaginação, era mais moreno e de olhos escuros, mas pronto, não é por isso que vou reclamar.
Apresentou uma série de pessoas, todas muito simpáticas (amigas Portuguesas incluídas) e ficou a olhar para mim. Fez-me perguntas em Italiano, mas eu falava pouco. Ele perguntou se eu não gostava de falar. É óbvio que gosto, mas não sei falar italiano, por isso disse-lhe:
Parla, gosto de te ouvir! Assim mesmo, em tom de ordem. Mal sabia ele que era só o que eu queria, que era esse um dos meus desejos mais secretos!
La ragazza più bella del bar ; il tuo sguardo mi affascina; il mio cuore batte più forte; Sono innamorato di te... etc, etc
Falou sim, muito. Tantas coisas que os meus ouvidos entraram em êxtase! Tinha vinte e sete anos, mas parecia ter mais. Perguntou se eu tinha vinte e oito. Nada mau, para quem só tem mais onze. Perguntou se queria fugir com ele. Disse-lhe que sim, que podíamos fugir para Roma logo a seguir à canção Billy Jean do Michael Jackson. (Curiosamente, o perfume que eu escolhi para essa noite chamava-se Roma e já não o usava há vários meses… Outras histórias que não cabem aqui…)
Dançamos bastante, rimos bastante, escutei-o bastante e, por fim, aproveitei uma distracção dele para escapar. Deve ter ficado a pensar que eu era maluca, quando deu pela minha ausência, mas eu só pensei que tinha de fugir antes que ele me apanhasse, pois a frase que me ocorria mais vezes, enquanto apressadamente me dirigia ao carro, era aquela bem conhecida: Oh God make me good, but not yet!

 
(Now I think I have inspiration to write a book!)