Aqui tudo pode acontecer... mas são essencialmente as nossas viagens pelo mundo das ideias e das experiencias que aqui podemos partilhar...
segunda-feira, dezembro 05, 2011
il divo, mais uma vez...
... porque já se pressente o natal e estas vozes são... divinas!...
oh se são!...
domingo, novembro 27, 2011
Midnight in Paris, de Woody Allen
(Ao ver o filme, deu-me uma enorme vontade de me meter num avião e ir jantar a Paris para rever os bateaux mouche à la Seine e caminhar pelas avenidas cheias de luz...)
"If you are lucky enough to have lived in Paris as a young man, then wherever you go for the rest of your life it stays with you, for Paris is a moveable feast. "
Ernest Hemingway
Ernest Hemingway (uma passagem do filme Midnight in Paris):
"All men fear death. It's a natural fear that consumes us all. We fear death because we feel that we haven't loved well enough or loved at all, which ultimately are one and the same. However, when you make love with a truly great woman, one that deserves the utmost respect in this world and one that makes you feel truly powerful, that fear of death completely disappears. Because when you are sharing your body and heart with a great woman the world fades away. You two are the only ones in the entire universe. You conquer what most lesser men have never conquered before, you have conquered a great woman's heart, the most vulnerable thing she can offer to another. Death no longer lingers in the mind. Fear no longer clouds your heart. Only passion for living, and for loving, become your sole reality. This is no easy task for it takes insurmountable courage. But remember this, for that moment when you are making love with a woman of true greatness you will feel immortal."
Não sei se estas palavras são de Hemingway ou da cabeça de Woody Allen que as coloca na boca do escritor, porém, Hemingway viveu o amor e a paixão tão intensamente que mesmo que não o tenha dito, deve tê-lo sentido em todas estas formas.
Ah, Paris et l'amour... Tenho de ir a Paris para me apaixonar... Quem sabe não reencontro o Hemingway a caminho de um bar dos anos 20 e dançamos juntos um charlston!
o amor...
"O amor é o sangue do sol dentro do sol. A inocência repetida mil vezes na vontade sincera de desejar que o céu compreenda. levantam-se tempestades frágeis e delicadas na respiração vegetal do amor. Como uma planta a crescer da terra. O amor é a luz do sol a beber a voz doce dessa planta. Algo dentro de qualquer coisa profunda. O amor é o sentido de todas as palavras impossíveis . (...)" José Luís Peixoto
sexta-feira, novembro 18, 2011
gotas de vida
Às vezes é preciso correr à chuva, sentir a água fresca da vida na pele, no cabelo e nos pés, para despertarmos.
Sentir o vento no rosto, abrir a janela, sair para a varanda e ver os pássaros voar para longe em bandos livres e contudo aprisionados à obrigação de ter de partir, porque o outono chegou.
Às vezes é bom sentir o outono.
Às vezes apetece sentar numa encosta e respirar. Respirar apenas a sensação profunda e quantas vezes fugaz de sentir a gratidão dentro do peito.
Andar à chuva sabe a vida. Parar um pouco a correria e sentir a chuva em gotas de vida sabe bem. Acorda os nossos sentidos para a urgência da serenidade, do prazer único de sentir um arrepio na pele, por ser esse, afinal, um sinal de que estamos tão vivos.
(Quantas vezes precisamos sentir que somos mais que apenas respirar?...)
sábado, novembro 12, 2011
young and foolish!
Esta canção chegou até mim através do meu teenager, o meu filho, claro, que anda sempre na crista da onda quanto à música! Eu já sabia que ele gostava da Katy, quer pela música, quer pelo seu look pin-up! A canção colou-se-me ao ouvido! E a letra, bem, levou-me para os meus 18 anos, para a universidade, para as tardes quentes de Verão em que tinha de estudar para as frequências, naquele ano atípico em que as aulas começaram em Fevereiro devido a guerras com o governo e acabaram em Julho, aquele ano em que eu e ele éramos caloiros, em 1989/90, e ele vinha assistir à minha aula de Introdução aos Estudos Linguísticos num anfiteatro cheio de gente (ele de Engenharia - young and foolish!). Fomos apanhados, pois claro, e o professor mandou-o sair e ele passou a ser o meu ídolo! E depois acabou, como acontece muitas vezes. E a vida levou-nos para bem longe um do outro.
Muitos anos depois disse-me algo do género: "talvez na próxima vida estejamos destinados a ficar juntos."
Por isso, a letra desta canção trouxe-me à memória aqueles tempos... E esta é para ele!
"In another life
I would be your girl
We keep all our promises
Be us against the world"
segunda-feira, outubro 31, 2011
sexta-feira, outubro 28, 2011
terça-feira, outubro 25, 2011
just a kiss!
Fim de tarde com vista sobre a cidade.
E ele está atrasado.
"Será que te vou conhecer? Dá-me uma pista."
"Paciência," diz ela por sms. "Cheguei primeiro, fizeste-me esperar, descobre-me."
"Dá lá uma ajuda", pede ele na sms seguinte. "Não sejas mázinha. Estou mesmo a chegar. Onde estás sentada? Junto à janela?"
"Encontra-me." O café tem bastante gente e ela sorri antevendo a dificuldade dele em encontrá-la.
O telemóvel vibra de novo e ele para à porta, sorri e vem na direcção dela.
"Foi fácil. Vi-te logo!"
Que magníficos olhos verdes... Muito mais bonitos que nas fotos que ela tinha visto. E que sorriso... Amigo de uma amiga, troca de emails, facebook, sms, as tecnologias aproximam as pessoas (há quem diga que separam). Por enquanto traçaram um caminho.
Ela tinha dado milhares de desculpas para adiar aquele encontro: um dia fora a chuva (pois, já há vários meses que a insistência era intensa), depois vieram as férias e o verão, depois o regresso ao trabalho, depois a distância, depois outro compromisso qualquer, depois nada. Depois ela achou que o devia ver.
E viu! E estava ali, agora.
Conversam de tanta coisa...
E as horas voam e o sol vai escoando a luz através das nuvens atrás da montanha.
Ela lembra-lhe que tem de ir embora.
Ele diz que sabe disso e saem juntos. Ele leva-a até ao carro e aperta-lhe a mão. Diz qualquer coisa sobre um novo encontro e ela encolhe os ombros e diz que sim, um dia, em breve.
Ela segue depois no seu carro atrás dele na estrada principal. Pouco depois ele dá sinal para encostar e ela para atrás dele. Ele sai e ela baixa o vidro para falarem quando sente os lábios dele encostados aos seus...
(Adoro esta música! Não sei porquê faz-me lembrar esta singela estória que acabei de escrever! Tantas estórias belas, andam por aí, como esta dos Lady Antebellum! Era ainda mais belo se o encontro da estória tivesse lugar em Paris, como no vídeo...
Maybe next time!
Maybe next time!
"So baby I'm alright, with just a kiss goodnight")
quinta-feira, outubro 20, 2011
baby I love your way
Fim de tarde, a caminho de mais umas horas de trabalho e o pôr do sol pareceu-me mais belo hoje, visto assim, ao longe, incendiado, no meio das nuvens brancas de um Outono ameno de dia e com noites frescas sob a luz da lua.
Conduzia ouvindo a canção do video acima e tudo parecia bater certo: a letra, a melodia, a estranha sensação de familiaridade com a música que achei conhecer desde sempre, desde os longínquos anos 70 enquanto criança...
E cantei alto, felizmente com os vidros fechados, felizmente estava sozinha, infelizmente o sol escondia-se rapidamente e a viagem era curta e a música teve de terminar.
Felizmente existem canções assim!
Shadows grow so long before my eyes
And they're moving across the page
Suddenly the day turns into night
Far away from the city
Don't hesitate
'Cause your love won't wait
Oh baby I love your way, everyday
Wanna tell you I love your way, everyday
Wanna be with you night and day
Moon appears to shine and light the sky
With the help of some fireflies
Wonder how they have the power to shine, shine, shine
I can see them under the pine
Don't hesitate
'Cause your love won't wait
Oh baby I love your way, everyday
Wanna tell you I love your way, oh
Wanna be with you night and day, oh yeah
Well don't hesitate
'Cause your love won't wait
I can see the sunset in your eyes
Brown and gray, blue besides
Clouds are stalking islands in the sun
I wish I could buy one
Out of season
Don't hesitate
'Cause your love won't wait
Oh baby I love your way, everyday
Wanna tell you I love your way
Wanna be with you night and day
...
quarta-feira, outubro 19, 2011
aventura-te...
Leitura que me apetece partilhar:
AVENTURA-TE
Eu falo contigo. Mesmo que tu não ouças, mesmo que não compreendas a minha voz, eu falo contigo. Falo através das flores, das frutas, da natureza. Falo através do que tu sentes sempre que te deres oportunidade de contemplar. E sempre que falo, digo-te o que fazer. O que é melhor para ti, a nível evolutivo e experimental. A nível de luz.
Mas nem sempre me ouves. Nem sempre olhas as flores, nem sempre contemplas. Nem sempre paras para me ouvir. Quando falo, dou-te conselhos, direcções. Mostro-te para onde vai a tua vida, e para onde devia ir, por onde és mais feliz e por onde mora a desgraça. A escolha é sempre tua. Só mostro caminhos. Não os escolho. E para quem não ouve, sobra a perda. Quem não me ouve não pode corrigir nada, apenas sofrer a perda e tentar aprender com ela.
A perda, seja ela qual for, serve para que compreendas que o caminho não estava certo. Mas qual é o verdadeiro caminho? Depois da perda, há a compreensão de que é necessária a mudança. Mas mudar para onde? Mudar para quê? É essa a resposta que deves empenhar-te em descobrir. Tens uma vantagem sobre todos os que não olham para os sinais. Sabes que é preciso mudar. Os outros ainda não sabem disso.
Resumindo: só te falta saber «onde» mudar. E para teres essa resposta, olha para o teu coração, olha para os teus mais íntimos planos. Aquilo que «sabes» que tens de fazer, embora ainda te falte a coragem; aquilo que achas ilógico, precipitado e imaturo. Quanto mais rótulos depreciativos o teu ego tiver colocado no teu sonho, mais forte ele será, e mais urgente também.
Aproveita a perda. Se o que achavas que era bom e seguro já não o é, se o que achavas que era certo já não o é, se o que consideravas «normal» não deu certo, então aventura-te. A perda já tens. O não já tens. Agora aposta no teu mais improvável sonho. Aproveita a perda para ires à procura da tua felicidade.
O LIVRO DA LUZ – Pergunte, O Céu Responde,
de Alexandra Solnado
domingo, outubro 16, 2011
Streets of Fire!
Anos 80.
Um filme e um disco de vinil com a respectiva banda sonora encheram a minha imaginação de possíveis histórias no futuro, histórias de liberdade e aventura, romance e música. O enredo nem era fabuloso mas a mística estava toda lá... "A rock fantasy"...
Maus e bons, acção, a rapariga bela e frágil (hot Diane Lane), o bonzão corajoso e destemido ("I'm coming out for you tonight"), rock'n'roll e motas...
Tantos ingredientes para Uma Estrada de Fogo onde o que conta é a velocidade e a música...
"You and me we are going nowhere slowly
But we've got to get away from the past,
There's nothing wrong with going nowhere baby,
But we should be going nowhere fast
It's so much better going nowhere fast!"
"Tonight is what it means to be young!"
(Para o meu amigo que gosta de motas e que sabe o que significa viajar no tempo!)
terça-feira, outubro 11, 2011
Sem aviso prévio
"Acredito piamente que nada acontece por acaso, e que existem alguns momentos na nossa vida em que nos deparamos com situações totalmente inesperadas.
Que não procuramos, que simplesmente ocorrem, que chegam sem aviso prévio, sem qualquer tipo de preparação mas que esperam sedentas por uma escolha. Uma resposta. Um tudo ou nada. Um quero ou não quero. Um aceito ou não aceito. Um sim ou sopas.
Sem resposta imediata, a vida continua a correr no presente. Sem planos nem projectos a longo prazo.
Deixo o tempo passar e a porta entreaberta, para que as emoções possam sair na medida justa, no tempo certo, no devido lugar ..."
(publicação retirada do livro do coração de uma alma muito especial)
coisas que vão e voltam
Tal como as ondas na praia, tal como as marés, há coisas que vão e voltam.
São as pessoas que aparecem na nossa vida, são as vivências que parecem repetir-se, de vez em quando, são as ilusões que nos adormecem a perspicácia e a razão por algum tempo, são as gargalhadas que conhecíamos tão bem e que, afinal, sempre estiveram connosco.
Tal como as ondas na praia, há pessoas que desaparecem por alguma razão e depois regressam, mas também há aquelas que a maré leva para bem longe, para o alto mar e por lá se perdem, sem retorno. Dessas, ficam as memórias, as aprendizagens, as fotografias tiradas com a câmara do espírito e que nos remetem para a necessidade de aprender algo e depois deixar ir...
As que regressam na próxima maré é porque ainda não terminaram a sua tarefa na nossa linha da vida e essas... essas são então bem vindas! Estão por cá para ficar, quem sabe eternamente ou quem sabe apenas algum tempo para, também, de novo partirem.
A sabedoria reside em entender tudo isso e aceitar que há coisas que vão e voltam. Basta esperar pela próxima maré!
sábado, outubro 08, 2011
o pecado do orgulho... um enorme orgulho!
Parabéns, Edgar, por mais um ano de trabalho, sucesso e reconhecimento! Assim se fazem os grandes homens! Estarei ao teu lado sempre, ao longo do caminho, incondicionalmente...
quinta-feira, setembro 29, 2011
hoje é um dia maravilhoso!
Hoje é um dia maravilhoso...
Faz hoje anos que senti que teria uma companhia para a vida, uma irmã do coração para me dar a mão em cada pedaço do caminho. A minha vida sem ela não seria igual, seria incomparavelmente mais só, mais vazia e triste. São clichès, são palavras, mas são também sentimentos que não sei colocar no papel. São recortes da vida presos na minha memória, sempre com a Cláudia a meu lado... Nos medos e nas ambições, nos sonhos e no vazio, irmãs para sempre! Obrigada por existires!
UM DIA MUITO FELIZ! PARABÉNS!
JUST JUMP AND TOUCH THE SKY!
terça-feira, setembro 27, 2011
7000 (texto de um leitor do Acontece)
7000 !!!
7000 vezes que alguém aqui veio, anónimo, com um envergonhado "deixa-me ficar um bocado contigo". Não tens de saber quem sou nem gostar de mim. Ninguém tem de saber que aqui estou e que gosto do que escreves. Só por seres tu a escrever. Não precisas de saber que vivo a tua esperança, a tua alegria, o teu silêncio quando a vida corre bem. Por vezes sinto a tua tristeza mas não posso dizer nada. Não existo, limito-me a viver a vida dos outros.
---------- cortar por aqui --------
Foi coincidência, ontem à noite voltei ao Acontece e, surpresa, calhou-me o 7000.
Parabéns.
Não haveria melhor texto para publicar a propósito deste assunto...
Se o que escrevemos faz alguém sonhar, rir, chorar... sentir algo por um momento, então as palavras que escrevemos fazem sentido... Obrigada pela companhia!
Fica comigo,então!
7000 vezes que alguém aqui veio, anónimo, com um envergonhado "deixa-me ficar um bocado contigo". Não tens de saber quem sou nem gostar de mim. Ninguém tem de saber que aqui estou e que gosto do que escreves. Só por seres tu a escrever. Não precisas de saber que vivo a tua esperança, a tua alegria, o teu silêncio quando a vida corre bem. Por vezes sinto a tua tristeza mas não posso dizer nada. Não existo, limito-me a viver a vida dos outros.
7000 vezes que alguém sonhou ao ler o que por aqui acontece e perguntou que sonhos terás quando escreves. Um blog é mesmo assim, desse lado está quem quiseres ser, do lado de cá está quem quiseres: todo o mundo ou ninguém.
Deixa-me ficar aqui contigo, sim?---------- cortar por aqui --------
Foi coincidência, ontem à noite voltei ao Acontece e, surpresa, calhou-me o 7000.
Parabéns.
Não haveria melhor texto para publicar a propósito deste assunto...
Se o que escrevemos faz alguém sonhar, rir, chorar... sentir algo por um momento, então as palavras que escrevemos fazem sentido... Obrigada pela companhia!
Fica comigo,então!
sábado, setembro 24, 2011
Lucidez
Depois do Ensaio Sobre a Cegueira, Saramago escreveu Ensaio sobre a Lucidez.
Não li o segundo, fiquei-me pelo primeiro que me perturbou bastante pela sua lucidez (!).
Apesar de não ter lido o mestre, aventuro-me a pensar sobre o assunto, a lucidez na vida e nos tropeções do dia-a-dia.
Haverá lucidez no início do Outono enquanto ainda calço as sandálias de verão e as folhas ensanguentadas já cobrem o chão nas manhãs frescas?
Haverá lucidez numa escolha de um caminho mais limpo de nuvens, mais fácil de dobrar e guardar no baú dos caminhos seguros?
Será a lucidez irmã da bonomia de um bocejo ao acordar tranquila pela manhã, com um raio de sol a penetrar num quarto só meu?
(Lucidez nas palavras directas e simples na hora da despedida… Precisa-se.)
Costumo dizer que não faço o que quero, antes faço o que está certo. Será isso lucidez? O que diria o mestre se eu lhe dissesse um dia estas palavras? Diria ele que vivo uma vida em banho-maria e pouco fértil em aventura?
Lembro-me agora do poema de Ricardo Reis:
Segue o teu destino
Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.
A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nos queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-proprios.
Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.
Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.
Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.
Ricardo Reis, in "Odes"
Heterónimo de Fernando Pessoa
Esta tranquilidade epicurista é, para mim, o expoente máximo da lucidez…
quarta-feira, setembro 21, 2011
amores de verão
Eram meados de Maio, uma tarde quente de sábado numa praia de longa memória a fazer lembrar uma tarde de verão. Ele apareceu e ela achou que estariam bem os dois naquele verão que se aproximava. Há muito tempo que não estavam assim e ele desejava-o muito. Queria estar com ela mais do que tudo, queria estar naquela praia, ou noutra qualquer ao lado dela. “Gosto de ti desde aqui até à lua…”, como dizia a canção e ela sentia que sim. Então porque não...? Porque não naquele verão e no próximo e no outro e para sempre, até ao fim? “O mundo para por um segundo eterno no teu olhar…” E ela acreditou que esse segundo podia ser eterno, nesse verão e depois.
A primavera foi escoando, luminosa e densa em cada manhã. A seguir veio o verão, entrecortado por chuvas impróprias, deslocadas, por nuvens perdidas num calendário de estio, por ventos de norte a tocarem chuva pela tarde. Mas era verão, ainda assim, e aquele amor prometia aguentar as chuvas de outras estações e até os ventos adversos que com frequência abalavam aquela praia. Ele abraçava-a a caminho de casa, ao fim da tarde. E escrevia-lhe mensagens em papelinhos que deixava junto às chaves de casa. Num deles escreveu “Não te abandono mais...” em letra miudinha e insegura. Uma letra que ela conhecia muito bem de outros papelinhos que ele deixava muitas vezes. Havia dias em que ele não deixava recados, antes deixava uma rosa, falsamente esquecida junto ao pão do pequeno-almoço, sempre vermelha e viçosa.
E o tempo escorreu célere pelos dias e Agosto passou arrebatado pelos ponteiros do relógio que inexoráveis mostram que tudo é efémero, e veio Setembro e com ele o silêncio e o fim da praia.
“Não tenho tempo para ti.” Disse-lhe ele um dia. “E este é o caminho.”
“You would never say a word
Kept me reaching in the dark
Always something to conceal”
(Dream Theater - Beneath The Surface)
domingo, setembro 11, 2011
Eu sabia

Eu sabia, por mais incrível que me pudesse parecer na altura, que um dia iria ter saudades.
Saudades daquele lugar, daquele cheiro a éter pelos corredores, das batas brancas, dos olhares indiferentes, das conversas vãs pelos corredores e até do cheiro da comida insonsa.
Das horas de almoço, dos fins semanas ali passados, dos médicos, dos enfermeiros. De subir as escadas descontroladamente até ao sétimo piso, só porque não queria perder alguns minutos a espera do elevador.
De chegar sempre ofegante ao último degrau das escadas.
De optar sempre em ser assim. De só esforço físico me toldar a dor, o desespero e a angústia.
De ser como uma espécie de analgésico, de anestesiante.
De encontrar-me sempre pronta depois daquele exercício. Pronta para me enfrentar.
De me recompor, ajeitar o cabelo e entrar.
Passar as duas portas basculantes, pegar na bata, na máscara e vesti-las.
Percorrer o corredor. De já os saber de cor. De tudo estar mecanizado.
De trancar os sentimentos.
E entrar sempre com o meu melhor sorriso.
E tu, mesmo doente retribuíres. Ficares feliz por me ver. E eu também.
Nunca soube se sentias o quão feliz eu ficava por te encontrar. Creio que sim.
Para todos os efeitos tinha vindo de elevador. Era assim que gostavas que eu subisse. E eu dizia-te que sim, para te tranquilizar.
E também já almoçara antes de vir e se tinha os olhos inchados, naquele dia em particular, era apenas por ter passado muitas horas em frente ao computador a trabalhar.
Fazia-te crer que nunca chorava. Que não havia motivos para isso. Ias vencer a doença, isso tinha de ser sempre uma certeza. A tua e às vezes a minha também.
Ao longo desses quatro anos invertemos os nossos papeis.
Eu fazia o de mãe e tu o de filha. Filtrava os meu problemas. Dava-te colo, aconchego e alento. Alimentavas-te disso. E habituei-me a dar-te as mãos, abraçar-te, vezes sem conta.
Aprendi a mentir-te com uma convicção desconcertante. Desconhecia essa minha capacidade. Na altura perguntava-me se percebias.
Hoje sei que não.
O medo da doença turvava-te a visão.
Cabia-me sempre o papel de te informar do mais difícil. Havia médicos que me diziam que não tinham coragem. Ficava aliviada por ser assim. Só eu sabia adornar-te as piores notícias.
Primeiro as lágrimas, depois a aceitação e por fim um sorriso. E assim, foste sempre vencendo pequenas grandes batalhas... até ao fim.
E aí foi residindo a força dos nossos afectos, do nosso amor. Até hoje.
Aquele que eternamente nos uniu e nos solidificou...
quarta-feira, agosto 10, 2011
o sabão da minha infância
A roupa dá voltas dentro da máquina de lavar. O meu chá esfria um pouco em cima da mesa da sala. A tarde está quente e é verão. Mesmo no verão gosto de beber chá.
A minha mãe leva a bacia cheia de roupa suja à cabeça para lavar no pequeno ribeiro. Hoje está de folga e só quando está em casa pode ir lavar a roupa. Somos muito pequenas ainda, por isso todo o processo é divertido. É bom ter a mãe em casa, há um suave aconchego em tê-la em casa, ainda que esteja sempre a trabalhar nos raros dias de folga. Não me lembro de algum dia a minha mãe ter brincado connosco… O carreiro estreito pelo meio dos campos em direcção à Presa (é este o nome do pequeno curso de água) enche-nos os pés de pó. Ouvem-se vozes de outras mulheres a conversarem animadas enquanto lavam. O olhar cansado da minha mãe não demonstra muita animação.
A máquina de lavar parou. E, sem esforço, retiro a roupa para uma bacia e levo-a para a varanda onde a estendo comodamente num estendal leve de alumínio. O cheiro a amaciador da minha roupa lavada confunde-se na minha memória com o cheiro a sabão azul em barra ou sabão Clarim da minha mãe. A lavagem da roupa era sempre tarefa para algumas horas, de tal forma que a nossa mãe levava lanche para nos dar a meio da tarde: um pão com Tulicreme e uma peça de fruta. A roupa com nódoas difíceis cora ao sol envolvida em sabão, colocada em cima de uma pedra estrategicamente encontrada para o efeito. Brincamos com pedras, corremos pelos carreiros estreitos junto à água e a tarde passa demoradamente como os anos longos da nossa infância.
Agora as tardes são curtas e sem histórias, passam rápido demais como um sopro. As férias de verão acabam mal começam e a magia do calor demorado na pele perde-se passados uns curtos dias. As tardes da minha infância demoravam semanas na minha cabeça, sobretudo nos dias em que a minha mãe não estava e nunca mais chegava do trabalho. As tardes em casa da Sr.ª. Linda, a ama querida que tivemos até terminar a escola (nunca me deu uma palmada sequer… chorei-a mais no seu funeral do que a morte das minhas avós), a brincar no terraço de lousa cinzenta e quente, as tardes eram longas e eu pensava que nunca mais crescia para ser uma mulher grande e independente e mandar na minha própria vida.
Acabei por crescer irremediavelmente e a minha mãe acabou por comprar um tanque de lavar roupa para casa e mais tarde uma máquina de lavar. O meu filho nunca me viu com uma bacia à cabeça no meu dia de folga, nem nunca comeu pão com Tulicreme enquanto brincava na água do riacho à espera que eu terminasse a cansativa lida de lavar a roupa. O meu filho não conhece o cheiro do sabão azul ou do sabão Clarim e não encontra nenhuma magia no cheiro do amaciador que uso na roupa. Não sei se o meu filho gostaria mais que eu usasse o sabão que tem o cheiro da minha infância…
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