sexta-feira, dezembro 30, 2011

balanço

O que escrever no último post do ano?
Que mensagem profunda e sentida se pode enviar a todos os que nos seguem neste Acontece?
A Cláudia já sintetizou a mensagem no post anterior: Feliz 2012! Depois, enviou-me um email e pediu para escolher uma música bonita para colocar por aqui. Andei todo o dia a pensar no assunto e acabei por me render a uma evidência: o fim de ano é ou não uma altura para balanços? Não daqueles com números e contas (esses não são a minha matéria), mas dos outros que remetem para a matéria não palpável, nem visível. Falo dos balanços interiores, os que nos centram no essencial, na alma, na existência, no riso e nas lágrimas, na dor e na alegria mais primitiva. Foi esse balanço que acabei por fazer sem me dar conta, ao escrever estas palavras.
Lembrei-me do que ficou para trás neste ano que passou e do que me faz sorrir neste penúltimo dia do ano. E invariavelmente chego a um rosto, o do Edgar! E depois a vários outros rostos que tive comigo neste ano que passou e que ainda estão comigo hoje e que estarão comigo no próximo ano. E, em última análise, este é o meu desejo para o próximo ano: conservar estes rostos na minha vida, estas vidas junto de mim com saúde e amor. Conservar o que me foi dado nesta viagem e poder dizer o mesmo no final do próximo ano: estamos todos juntos e estamos bem!

Por norma e sempre que posso, faço o que a Cláudia me pede. Escolher uma música, foi o pedido hoje de manhã. E então, para completar tudo o que ficou dito acima, falta uma peça.
Descubram-na na canção que escolhi, em jeito também de balanço!


FELIZ ANO NOVO!


A todos os que nos acompanham neste blog quero desejar um excelente 2012!
Não se esqueçam de se divertirem e de serem FELIZES.

quarta-feira, dezembro 21, 2011

"José e Pilar" - Tema: "Já não estar", interpretado por Camané no LUX



escuto e o som passa directo para dentro da minha pele
e existir alguem que me conhece assim...
e que se lembra que eu vou gostar de saber e ouvir.

domingo, dezembro 18, 2011

perdoname



Encantadora...
Uma combinação perfeita de sons e vozes...

quarta-feira, dezembro 07, 2011

camélias



Camélias… Descobri a sua beleza recentemente. São lindíssimas, têm várias cores e duram bastante tempo. Muito mais que as rosas, que murcham em dois dias depois de cortadas. Nascem numa árvore magnífica que ilumina qualquer jardim. Têm um aspecto suave e harmonioso. Não têm perfume. Não têm picos. A sua despretensiosa beleza só é comparável à generosidade do dono das camélias. Uma discreta sensibilidade que vem de debaixo da pele, tal como a cor das camélias que já nasce com elas. A ligação dos dois é inevitável. As camélias são perfeitas na sua candura. 
A alma das pessoas devia ser como uma camélia branca (a minha favorita): discreta, imaculada, suave, harmoniosa, bela, simples. Almas simples e belas. É mais fácil encontrar uma camélia repleta de orvalho a despontar numa manhã de inverno…

segunda-feira, dezembro 05, 2011

il divo, mais uma vez...





... porque já se pressente o natal e estas vozes são... divinas!...
oh se são!...

domingo, novembro 27, 2011

Midnight in Paris, de Woody Allen



(Ao ver o filme, deu-me uma enorme vontade de me meter num avião e ir jantar a Paris para rever os bateaux mouche à la Seine e caminhar pelas avenidas cheias de luz...)

"If you are lucky enough to have lived in Paris as a young man, then wherever you go for the rest of your life it stays with you, for Paris is a moveable feast. "
Ernest Hemingway


Ernest Hemingway (uma passagem do filme Midnight in Paris):
"All men fear death. It's a natural fear that consumes us all. We fear death because we feel that we haven't loved well enough or loved at all, which ultimately are one and the same. However, when you make love with a truly great woman, one that deserves the utmost respect in this world and one that makes you feel truly powerful, that fear of death completely disappears. Because when you are sharing your body and heart with a great woman the world fades away. You two are the only ones in the entire universe. You conquer what most lesser men have never conquered before, you have conquered a great woman's heart, the most vulnerable thing she can offer to another. Death no longer lingers in the mind. Fear no longer clouds your heart. Only passion for living, and for loving, become your sole reality. This is no easy task for it takes insurmountable courage. But remember this, for that moment when you are making love with a woman of true greatness you will feel immortal."  
Não sei se estas palavras são de Hemingway ou da cabeça de Woody Allen que as coloca na boca do escritor, porém, Hemingway viveu o amor e a paixão tão intensamente que mesmo que não o tenha dito, deve tê-lo sentido em todas estas formas. 
Ah, Paris et l'amour... Tenho de ir a Paris para me apaixonar... Quem sabe não reencontro o Hemingway a caminho de um bar dos anos 20 e dançamos juntos um charlston!

o amor...



"O amor é o sangue do sol dentro do sol. A inocência repetida mil vezes na vontade sincera de desejar que o céu compreenda. levantam-se tempestades frágeis e delicadas na respiração vegetal do amor. Como uma planta a crescer da terra. O amor é a luz do sol a beber a voz doce dessa planta. Algo dentro de qualquer coisa profunda. O amor é o sentido de todas as palavras impossíveis . (...)" José Luís Peixoto

sexta-feira, novembro 18, 2011

gotas de vida


Às vezes é preciso correr à chuva, sentir a água fresca da vida na pele, no cabelo e nos pés, para despertarmos.
Sentir o vento no rosto, abrir a janela, sair para a varanda e ver os pássaros voar para longe em bandos livres e contudo aprisionados à obrigação de ter de partir, porque o outono chegou.
Às vezes é bom sentir o outono.
Às vezes apetece sentar numa encosta e respirar. Respirar apenas a sensação profunda e quantas vezes fugaz de sentir a gratidão dentro do peito.
Andar à chuva sabe a vida. Parar um pouco a correria e sentir a chuva em gotas de vida sabe bem. Acorda os nossos sentidos para a urgência da serenidade, do prazer único de sentir um arrepio na pele, por ser esse, afinal, um sinal de que estamos tão vivos.
(Quantas vezes precisamos sentir que somos mais que apenas respirar?...)



sábado, novembro 12, 2011

young and foolish!




Esta canção chegou até mim através do meu teenager, o meu filho, claro, que anda sempre na crista da onda quanto à música! Eu já sabia que ele gostava da Katy, quer pela música, quer pelo seu look pin-up! A canção colou-se-me ao ouvido! E a letra, bem, levou-me para os meus 18 anos, para a universidade, para as tardes quentes de Verão em que tinha de estudar para as frequências, naquele ano atípico em que as aulas começaram em Fevereiro devido a guerras com o governo e acabaram em Julho, aquele ano em que eu e ele éramos caloiros, em 1989/90, e ele vinha assistir à minha aula de Introdução aos Estudos Linguísticos num anfiteatro cheio de gente (ele de Engenharia - young and foolish!). Fomos apanhados, pois claro, e o professor mandou-o sair e ele passou a ser o meu ídolo! E depois acabou, como acontece muitas vezes. E a vida levou-nos para bem longe um do outro.

Muitos anos depois disse-me algo do género: "talvez na próxima vida estejamos destinados a ficar juntos."
Por isso, a letra desta canção trouxe-me à memória aqueles tempos... E esta é para ele!

"In another life
I would be your girl
We keep all our promises
Be us against the world"


segunda-feira, outubro 31, 2011

sexta-feira, outubro 28, 2011

terça-feira, outubro 25, 2011

just a kiss!



Fim de tarde com vista sobre a cidade.
E ele está atrasado.
"Será que te vou conhecer? Dá-me uma pista."
"Paciência," diz ela por sms. "Cheguei primeiro, fizeste-me esperar, descobre-me."
"Dá lá uma ajuda", pede ele na sms seguinte. "Não sejas mázinha. Estou mesmo a chegar. Onde estás sentada? Junto à janela?"
"Encontra-me." O café tem bastante gente e ela sorri antevendo a dificuldade dele em encontrá-la.
O telemóvel vibra de novo e ele para à porta, sorri e vem na direcção dela.
"Foi fácil. Vi-te logo!"
Que magníficos olhos verdes... Muito mais bonitos que nas fotos que ela tinha visto. E que sorriso... Amigo de uma amiga, troca de emails, facebook, sms, as tecnologias aproximam as pessoas (há quem diga que separam). Por enquanto traçaram um caminho. 
Ela tinha dado milhares de desculpas para adiar aquele encontro: um dia fora a chuva (pois, já há vários meses que a insistência era intensa), depois vieram as férias e o verão, depois o regresso ao trabalho, depois a distância, depois outro compromisso qualquer, depois nada. Depois ela achou que o devia ver.
E viu! E estava ali, agora.
Conversam de tanta coisa...
E as horas voam e o sol vai escoando a luz através das nuvens atrás da montanha.
Ela lembra-lhe que tem de ir embora.
Ele diz que sabe disso e saem juntos. Ele leva-a até ao carro e aperta-lhe a mão. Diz qualquer coisa sobre um novo encontro e ela encolhe os ombros e diz que sim, um dia, em breve.
Ela segue depois no seu carro atrás dele na estrada principal. Pouco depois ele dá sinal para encostar e ela para atrás dele. Ele sai e ela baixa o vidro para falarem quando sente os lábios dele encostados aos seus...

(Adoro esta música! Não sei porquê faz-me lembrar esta singela estória que acabei de escrever! Tantas estórias belas, andam por aí, como esta dos Lady Antebellum! Era ainda mais belo se o encontro da estória tivesse lugar em Paris, como no vídeo...
Maybe next time!

"So baby I'm alright, with just a kiss goodnight")

quinta-feira, outubro 20, 2011

baby I love your way



Fim de tarde, a caminho de mais umas horas de trabalho e o pôr do sol pareceu-me mais belo hoje, visto assim, ao longe, incendiado, no meio das nuvens brancas de um Outono ameno de dia e com noites frescas sob a luz da lua.
Conduzia ouvindo a canção do video acima e tudo parecia bater certo: a letra, a melodia, a estranha sensação de familiaridade com a música que achei conhecer desde sempre, desde os longínquos anos 70 enquanto criança...
E cantei alto, felizmente com os vidros fechados, felizmente estava sozinha, infelizmente o sol escondia-se rapidamente e a viagem era curta e a música teve de terminar.
Felizmente existem canções assim!


Shadows grow so long before my eyes
And they're moving across the page
Suddenly the day turns into night
Far away from the city
Don't hesitate
'Cause your love won't wait

Oh baby I love your way, everyday
Wanna tell you I love your way, everyday
Wanna be with you night and day

Moon appears to shine and light the sky
With the help of some fireflies
Wonder how they have the power to shine, shine, shine
I can see them under the pine
Don't hesitate
'Cause your love won't wait

Oh baby I love your way, everyday
Wanna tell you I love your way, oh
Wanna be with you night and day, oh yeah

Well don't hesitate
'Cause your love won't wait

I can see the sunset in your eyes
Brown and gray, blue besides
Clouds are stalking islands in the sun
I wish I could buy one
Out of season

Don't hesitate
'Cause your love won't wait
Oh baby I love your way, everyday
Wanna tell you I love your way
Wanna be with you night and day
...

quarta-feira, outubro 19, 2011

aventura-te...



Leitura que me apetece partilhar:

AVENTURA-TE

Eu falo contigo. Mesmo que tu não ouças, mesmo que não compreendas a minha voz, eu falo contigo. Falo através das flores, das frutas, da natureza. Falo através do que tu sentes sempre que te deres oportunidade de contemplar. E sempre que falo, digo-te o que fazer. O que é melhor para ti, a nível evolutivo e experimental. A nível de luz.

Mas nem sempre me ouves. Nem sempre olhas as flores, nem sempre contemplas. Nem sempre paras para me ouvir. Quando falo, dou-te conselhos, direcções. Mostro-te para onde vai a tua vida, e para onde devia ir, por onde és mais feliz e por onde mora a desgraça. A escolha é sempre tua. Só mostro caminhos. Não os escolho. E para quem não ouve, sobra a perda. Quem não me ouve não pode corrigir nada, apenas sofrer a perda e tentar aprender com ela.

A perda, seja ela qual for, serve para que compreendas que o caminho não estava certo. Mas qual é o verdadeiro caminho? Depois da perda, há a compreensão de que é necessária a mudança. Mas mudar para onde? Mudar para quê? É essa a resposta que deves empenhar-te em descobrir. Tens uma vantagem sobre todos os que não olham para os sinais. Sabes que é preciso mudar. Os outros ainda não sabem disso.

Resumindo: só te falta saber «onde» mudar. E para teres essa resposta, olha para o teu coração, olha para os teus mais íntimos planos. Aquilo que «sabes» que tens de fazer, embora ainda te falte a coragem; aquilo que achas ilógico, precipitado e imaturo. Quanto mais rótulos depreciativos o teu ego tiver colocado no teu sonho, mais forte ele será, e mais urgente também.

Aproveita a perda. Se o que achavas que era bom e seguro já não o é, se o que achavas que era certo já não o é, se o que consideravas «normal» não deu certo, então aventura-te. A perda já tens. O não já tens. Agora aposta no teu mais improvável sonho. Aproveita a perda para ires à procura da tua felicidade.

O LIVRO DA LUZ – Pergunte, O Céu Responde,
de Alexandra Solnado

domingo, outubro 16, 2011

Streets of Fire!



Anos 80.
Um filme e um disco de vinil com a respectiva banda sonora encheram a minha imaginação de possíveis histórias no futuro, histórias de liberdade e aventura, romance e música. O enredo nem era fabuloso mas a mística estava toda lá... "A rock fantasy"...
Maus e bons, acção, a rapariga bela e frágil (hot Diane Lane), o bonzão corajoso e destemido ("I'm coming out for you tonight"), rock'n'roll e motas...
Tantos ingredientes para Uma Estrada de Fogo onde o que conta é a velocidade e a música...


"You and me we are going nowhere slowly
But we've got to get away from the past,
There's nothing wrong with going nowhere baby,
But we should be going nowhere fast
It's so much better going nowhere fast!"




"Tonight is what it means to be young!"


(Para o meu amigo que gosta de motas e que sabe o que significa viajar no tempo!)

terça-feira, outubro 11, 2011

Sem aviso prévio


"Acredito piamente que nada acontece por acaso, e que existem alguns momentos na nossa vida em que nos deparamos com situações totalmente inesperadas.
Que não procuramos, que simplesmente ocorrem, que chegam sem aviso prévio, sem qualquer tipo de preparação mas que esperam sedentas por uma escolha. Uma resposta. Um tudo ou nada. Um quero ou não quero. Um aceito ou não aceito. Um sim ou sopas.
Sem resposta imediata, a vida continua a correr no presente. Sem planos nem projectos a longo prazo.
Deixo o tempo passar e a porta entreaberta, para que as emoções possam sair na medida justa, no tempo certo, no devido lugar ..."
(publicação retirada do livro do coração de uma alma muito especial)

coisas que vão e voltam


Tal como as ondas na praia, tal como as marés, há coisas que vão e voltam.
São as pessoas que aparecem na nossa vida, são as vivências que parecem repetir-se, de vez em quando, são as ilusões que nos adormecem a perspicácia e a razão por algum tempo, são as gargalhadas que conhecíamos tão bem e que, afinal, sempre estiveram connosco.
Tal como as ondas na praia, há pessoas que desaparecem por alguma razão e depois regressam, mas também há aquelas que a maré leva para bem longe, para o alto mar e por lá se perdem, sem retorno. Dessas, ficam as memórias, as aprendizagens, as fotografias tiradas com a câmara do espírito e que nos remetem para a necessidade de aprender algo e depois deixar ir...
As que regressam na próxima maré é porque ainda não terminaram a sua tarefa na nossa linha da vida e essas... essas são então bem vindas! Estão por cá para ficar, quem sabe eternamente ou quem sabe apenas algum tempo para, também, de novo partirem.
A sabedoria reside em entender tudo isso e aceitar que há coisas que vão e voltam. Basta esperar pela próxima maré!

sábado, outubro 08, 2011

o pecado do orgulho... um enorme orgulho!

video

Parabéns, Edgar, por mais um ano de trabalho, sucesso e reconhecimento! Assim se fazem os grandes homens! Estarei ao teu lado sempre, ao longo do caminho, incondicionalmente...

quinta-feira, setembro 29, 2011

hoje é um dia maravilhoso!


Hoje é um dia maravilhoso...
Faz hoje anos que senti que teria uma companhia para a vida, uma irmã do coração para me dar a mão em cada pedaço do caminho. A minha vida sem ela não seria igual, seria incomparavelmente mais só, mais vazia e triste. São clichès, são palavras, mas são também sentimentos que não sei colocar no papel. São recortes da vida presos na minha memória, sempre com a Cláudia a meu lado... Nos medos e nas ambições, nos sonhos e no vazio, irmãs para sempre! Obrigada por existires!
UM DIA MUITO FELIZ! PARABÉNS!

JUST JUMP AND TOUCH THE SKY!

terça-feira, setembro 27, 2011

7000 (texto de um leitor do Acontece)

7000 !!!

7000 vezes que alguém aqui veio, anónimo, com um envergonhado "deixa-me ficar um bocado contigo". Não tens de saber quem sou nem gostar de mim. Ninguém tem de saber que aqui estou e que gosto do que escreves. Só por seres tu a escrever. Não precisas de saber que vivo a tua esperança, a tua alegria, o teu silêncio quando a vida corre bem. Por vezes sinto a tua tristeza  mas não posso dizer nada. Não existo, limito-me a viver a vida dos outros.
7000 vezes que alguém sonhou ao ler o que por aqui acontece e perguntou que sonhos terás quando escreves. Um blog é mesmo assim, desse lado está quem quiseres ser, do lado de cá está quem quiseres: todo o mundo ou ninguém.
Deixa-me ficar aqui contigo, sim?

---------- cortar por aqui --------

Foi coincidência, ontem à noite voltei ao Acontece e, surpresa, calhou-me o 7000.
Parabéns.

Não haveria melhor texto para publicar a propósito deste assunto...
Se o que escrevemos faz alguém sonhar, rir, chorar... sentir algo por um momento, então as palavras que escrevemos fazem sentido... Obrigada pela companhia!
 
Fica comigo,então!

sábado, setembro 24, 2011

Lucidez


Depois do Ensaio Sobre a Cegueira, Saramago escreveu Ensaio sobre a Lucidez.
Não li o segundo, fiquei-me pelo primeiro que me perturbou bastante pela sua lucidez (!).
Apesar de não ter lido o mestre, aventuro-me a pensar sobre o assunto, a lucidez na vida e nos tropeções do dia-a-dia.
Haverá lucidez no início do Outono enquanto ainda calço as sandálias de verão e as folhas ensanguentadas já cobrem o chão nas manhãs frescas?
Haverá lucidez numa escolha de um caminho mais limpo de nuvens, mais fácil de dobrar e guardar no baú dos caminhos seguros?
Será a lucidez irmã da bonomia de um bocejo ao acordar tranquila pela manhã, com um raio de sol a penetrar num quarto só meu?
(Lucidez nas palavras directas e simples na hora da despedida… Precisa-se.)
Costumo dizer que não faço o que quero, antes faço o que está certo. Será isso lucidez? O que diria o mestre se eu lhe dissesse um dia estas palavras? Diria ele que vivo uma vida em banho-maria e pouco fértil em aventura?

Lembro-me agora do poema de Ricardo Reis:

Segue o teu destino

Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nos queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-proprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.
Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

Ricardo Reis, in "Odes"
Heterónimo de Fernando Pessoa

Esta tranquilidade epicurista é, para mim, o expoente máximo da lucidez…

quarta-feira, setembro 21, 2011

amores de verão


 

Eram meados de Maio, uma tarde quente de sábado numa praia de longa memória a fazer lembrar uma tarde de verão. Ele apareceu e ela achou que estariam bem os dois naquele verão que se aproximava. Há muito tempo que não estavam assim e ele desejava-o muito. Queria estar com ela mais do que tudo, queria estar naquela praia, ou noutra qualquer ao lado dela. “Gosto de ti desde aqui até à lua…”, como dizia a canção e ela sentia que sim. Então porque não...? Porque não naquele verão e no próximo e no outro e para sempre, até ao fim? “O mundo para por um segundo eterno no teu olhar…” E ela acreditou que esse segundo podia ser eterno, nesse verão e depois.
A primavera foi escoando, luminosa e densa em cada manhã. A seguir veio o verão, entrecortado por chuvas impróprias, deslocadas, por nuvens perdidas num calendário de estio, por ventos de norte a tocarem chuva pela tarde. Mas era verão, ainda assim, e aquele amor prometia aguentar as chuvas de outras estações e até os ventos adversos que com frequência abalavam aquela praia. Ele abraçava-a a caminho de casa, ao fim da tarde. E escrevia-lhe mensagens em papelinhos que deixava junto às chaves de casa. Num deles escreveu “Não te abandono mais...” em letra miudinha e insegura. Uma letra que ela conhecia muito bem de outros papelinhos que ele deixava muitas vezes. Havia dias em que ele não deixava recados, antes deixava uma rosa, falsamente esquecida junto ao pão do pequeno-almoço, sempre vermelha e viçosa.
E o tempo escorreu célere pelos dias e Agosto passou arrebatado pelos ponteiros do relógio que inexoráveis mostram que tudo é efémero, e veio Setembro e com ele o silêncio e o fim da praia.
“Não tenho tempo para ti.” Disse-lhe ele um dia. “E este é o caminho.”

You would never say a word
Kept me reaching in the dark
Always something to conceal”

(Dream Theater - Beneath The Surface)

domingo, setembro 11, 2011

Eu sabia


Eu sabia, por mais incrível que me pudesse parecer na altura, que um dia iria ter saudades.
Saudades daquele lugar, daquele cheiro a éter pelos corredores, das batas brancas, dos olhares indiferentes, das conversas vãs pelos corredores e até do cheiro da comida insonsa.
Das horas de almoço, dos fins semanas ali passados, dos médicos, dos enfermeiros. De subir as escadas descontroladamente até ao sétimo piso, só porque não queria perder alguns minutos a espera do elevador.
De chegar sempre ofegante ao último degrau das escadas.
De optar sempre em ser assim. De só esforço físico me toldar a dor, o desespero e a angústia.
De ser como uma espécie de analgésico, de anestesiante.
De encontrar-me sempre pronta depois daquele exercício. Pronta para me enfrentar.
De me recompor, ajeitar o cabelo e entrar.
Passar as duas portas basculantes, pegar na bata, na máscara e vesti-las.
Percorrer o corredor. De já os saber de cor. De tudo estar mecanizado.
De trancar os sentimentos.
E entrar sempre com o meu melhor sorriso.
E tu, mesmo doente retribuíres. Ficares feliz por me ver. E eu também.
Nunca soube se sentias o quão feliz eu ficava por te encontrar. Creio que sim.
Para todos os efeitos tinha vindo de elevador. Era assim que gostavas que eu subisse. E eu dizia-te que sim, para te tranquilizar.
E também já almoçara antes de vir e se tinha os olhos inchados, naquele dia em particular, era apenas por ter passado muitas horas em frente ao computador a trabalhar.
Fazia-te crer que nunca chorava. Que não havia motivos para isso. Ias vencer a doença, isso tinha de ser sempre uma certeza. A tua e às vezes a minha também.
Ao longo desses quatro anos invertemos os nossos papeis.
Eu fazia o de mãe e tu o de filha. Filtrava os meu problemas. Dava-te colo, aconchego e alento. Alimentavas-te disso. E habituei-me a dar-te as mãos, abraçar-te, vezes sem conta.
Aprendi a mentir-te com uma convicção desconcertante. Desconhecia essa minha capacidade. Na altura perguntava-me se percebias.
Hoje sei que não.
O medo da doença turvava-te a visão.
Cabia-me sempre o papel de te informar do mais difícil. Havia médicos que me diziam que não tinham coragem. Ficava aliviada por ser assim. Só eu sabia adornar-te as piores notícias.
Primeiro as lágrimas, depois a aceitação e por fim um sorriso. E assim, foste sempre vencendo pequenas grandes batalhas... até ao fim.
E aí foi residindo a força dos nossos afectos, do nosso amor. Até hoje.
Aquele que eternamente nos uniu e nos solidificou...

quarta-feira, agosto 10, 2011

o sabão da minha infância

 

A roupa dá voltas dentro da máquina de lavar. O meu chá esfria um pouco em cima da mesa da sala. A tarde está quente e é verão. Mesmo no verão gosto de beber chá.
A minha mãe leva a bacia cheia de roupa suja à cabeça para lavar no pequeno ribeiro. Hoje está de folga e só quando está em casa pode ir lavar a roupa. Somos muito pequenas ainda, por isso todo o processo é divertido. É bom ter a mãe em casa, há um suave aconchego em tê-la em casa, ainda que esteja sempre a trabalhar nos raros dias de folga. Não me lembro de algum dia a minha mãe ter brincado connosco… O carreiro estreito pelo meio dos campos em direcção à Presa (é este o nome do pequeno curso de água) enche-nos os pés de pó. Ouvem-se vozes de outras mulheres a conversarem animadas enquanto lavam. O olhar cansado da minha mãe não demonstra muita animação.
A máquina de lavar parou. E, sem esforço, retiro a roupa para uma bacia e levo-a para a varanda onde a estendo comodamente num estendal leve de alumínio. O cheiro a amaciador da minha roupa lavada confunde-se na minha memória com o cheiro a sabão azul em barra ou sabão Clarim da minha mãe. A lavagem da roupa era sempre tarefa para algumas horas, de tal forma que a nossa mãe levava lanche para nos dar a meio da tarde: um pão com Tulicreme e uma peça de fruta. A roupa com nódoas difíceis cora ao sol envolvida em sabão, colocada em cima de uma pedra estrategicamente encontrada para o efeito. Brincamos com pedras, corremos pelos carreiros estreitos junto à água e a tarde passa demoradamente como os anos longos da nossa infância.
Agora as tardes são curtas e sem histórias, passam rápido demais como um sopro. As férias de verão acabam mal começam e a magia do calor demorado na pele perde-se passados uns curtos dias. As tardes da minha infância demoravam semanas na minha cabeça, sobretudo nos dias em que a minha mãe não estava e nunca mais chegava do trabalho. As tardes em casa da Sr.ª. Linda, a ama querida que tivemos até terminar a escola (nunca me deu uma palmada sequer… chorei-a mais no seu funeral do que a morte das minhas avós), a brincar no terraço de lousa cinzenta e quente, as tardes eram longas e eu pensava que nunca mais crescia para ser uma mulher grande e independente e mandar na minha própria vida.
Acabei por crescer irremediavelmente e a minha mãe acabou por comprar um tanque de lavar roupa para casa e mais tarde uma máquina de lavar. O meu filho nunca me viu com uma bacia à cabeça no meu dia de folga, nem nunca comeu pão com Tulicreme enquanto brincava na água do riacho à espera que eu terminasse a cansativa lida de lavar a roupa. O meu filho não conhece o cheiro do sabão azul ou do sabão Clarim e não encontra nenhuma magia no cheiro do amaciador que uso na roupa. Não sei se o meu filho gostaria mais que eu usasse o sabão que tem o cheiro da minha infância…

terça-feira, julho 26, 2011

Porque rir faz bem - Capítulo I


O Gonçalo é seleccionado pelo colégio para integrar na equipa de futsal de competição.
É obrigatório a ida ao Centro de Medicina Desportiva de Lisboa para obter uma declaração médica a atestar a aptidão física para a practica da modalidade.
Simples? Também achei.
Vou a Internet, procuro o contacto telefónico para marcar a consulta.
Centro de Medicina Desportiva de Lisboa:
Horários - 9h00 às 17h30.
Geral: Nº 123
Marcação de Consultas: Nº 456
Marcação de Exames: Nº 678

Ligo para o geral. Impedido. Tento mais tarde... impedido. Tento mais uma... e mais uma ... e mais uma ... Impedido, Impedido , Impedido !!!

Desisto.

Mudo de número, tento a marcação de consultas. Toca, toca, toca e ... atendem !!

Do outro lado uma voz muito baixa:
- Estou...
- Estou ! (digo eu entusiamada, é desta!!)
- Estou
- É do centro de medicina desportiva de Lisboa ?
- Não minha senhora!
- Não?! Peço desculpa, deve ser engano..
- Não é engano, não
- Não?! (ok, não estou a perceber nada!)
- Não, ligou para o centro de anti dopagem, mas eu ligo para o geral
- Obrigada ... (oh, não! O geral não !!!)

Ao fim de 10 minutos de música, sou atendida.

- ESTOU!!!
- Estou sim, estou a ligar para o Centro de Medicina Desportiva de Lisboa?
- ESTÁ SIM (Aqui é assim, atendemos as pessoas a gritar)
- Pretendia marcar uma consulta para o meu filho frequ... (sou interrompida)
- Já FECHAMOS HOJE!!
- Desculpe?! Mas já fecharam como? O Horário é até às 17h30 e são 17h10...
- SIM, MAS HOJE JÁ FECHAMOS. LIGUE AMANHÃ

TRIM .... Chamada desligada!

Nada de desânimos. Amanhã tenta-se de novo.

Dia seguinte. Recomeça a saga.

Ligo para o geral. Impedido. Tento mais tarde... impedido. Tento mais uma... e mais uma ... e mais uma ... Impedido, Impedido , Impedido !!!

Desta vez não desisto e de repente:

- ESTOU
- Estou sim, bom dia! Estou a ligar para o Centro de Medicina Desportiva de Lisboa? (Ai como eu estou feliz!!! Consegui, consegui, consegui!)
- SIM
- Pretendia marcar uma consulta para o meu fil...
- PARA QUÊ? (Sim, e gritamos todos os dias)
- É la para o colégio. Para praticar Futsal de competição
- NÚMERO DO BILHETE DE IDENTIDADE?
- Não tenho aqui de momento
- DATA DE NASCIMENTO?
- 20 de Setembro de 2002
- QUANDO É QUE QUER A CONSULTA (só faltou dizer, HEIN?)
- Pode ser agora para Agosto, vou estar de férias
- QUAL É O DIA QUE QUER?
- Pode ser para dia 16?
- NÂO!
- Então, quando é que tem vaga?
- DIA 18
- Pode ser. Marque então para dia 18, sff
- A QUE HORAS???
- Uma qualquer! (sim, vamos lá a despachar que isto começa a perder a piada)
- NÃO PODE SER DIA 18! A CRIANÇA TERÁ DE VIR EM SETEMBRO
- Em Setembro?! Mas, nessa altura já precisava de ter o atestado
- NÃO PODE! A CRIANÇA SÓ PODE SER CONSULTADA NO MÊS DO SEU ANIVERSÁRIO

... 1 minuto meu de silêncio, tinhamos o caldo entornado...

- Olhe minha senhora ... desculpa lá?! Mas se a criança só fizer anos em Dezembro é
suposto ela perder 3 meses de competição?!
- Não, eu vou explicar ...( e não é também somos capazes de moderar o tom?! Ah pois!)
- Explique-me lá então!
- É que se a criança só tiver 8 anos deve ser vista no mês do seu aniversário. Assim
vai ter que vir em Agosto e depois tem de voltar em Setembro.
- Então só pode ir a partir de 20 de Setembro, é isso?
- Não, pode vir logo no dia 1 de Setembro.
- Deixe cá ver se eu percebi. Se fôr no dia 18 de Agosto os exames não são válidos,
porque a criança não tem 9 anos. Se os fizer no dia 1 de Setembro e a criança
ainda continuar sem ter 9 anos, estão optimos é isso?
- Sim é isso...
- Muito bem, então vamos no dia 18 de Agosto.
- Esta marcadinha a consulta.
- Obrigada

E ... desligo!!

Perceberam? Pois eu também não.
Valha-me ao menos as gargalhadas que dei a seguir!!

P.S: Até estou com M-E-D-O do que há-de vir no dia 18.

sexta-feira, julho 22, 2011

Pois sim


Pois sim, dizem-me.
Que não posso ser mãe galinha.
Que devia aproveitar o tempo que estou sem o meu pitainho para me divertir.
Para ler e para ir ao cinema!
Pois não.
Nem leio, nem vou ao cinema. É simples, não me apetece.
Falta-me qualquer coisa.
Ou melhor falta-me TUDO.
Se vale a pena sofrer assim ?! Se adianta ?! Pois claro que não!
Quando em tempos tinha estes pensamentos em voz alta, ou quando os liam no meu silêncio, alguém me dizia sempre com carinho:
"Pois não, filha... mas nós não somos feitos, fizeram-nos!"
Ora ai está uma grande verdade!
E é nestas alturas que eu gostava tanto que me tivessem feito de outra forma...

quarta-feira, julho 06, 2011

Momentos com a minha mãe


Tenho a melhor mãe do mundo. Cada dia que passa estou mais convencida disso.
Mas esta mãe é uma doideira pois não consegue parar. Junto dela não há lugar para a preguiça nem para inutilidade nem para a pasmaceira. Tudo tem um propósito e precisa de ser feito. Ela não fica à espera que os outros o façam por ela. Está sempre na frente da fileira das tarefas.
Eu, que ao que parece até sou um bocado parecida com ela nesse aspecto, cheguei lá a casa e senti necessidade de a fazer parar (uma vez mais).
Primeiro tive que ser paciente e escutar os milhares de coisas que tem sempre para me contar. E começa um assunto e vai para outro num ápice e depois volta para contar mais alguma coisa que lhe escapou pois a velocidade por vezes atraiçoa-nos. Tudo isto e sempre a fazer alguma coisa.
Então quando já estava um nadinha mais vazia das histórias que enchem o dia dela deixei-a sentar-se e disse: “- Deixa-me ler-te uma coisa que a tua filha escreveu.”
Abri o blog e li um post da minha querida irmã.
Os olhos dela encheram-se de alegria e orgulho e disse: 'Ela é espectacular. E escreve mesmo muito bem. Não sei porque se admira com o filho. Ele sai a ela!"
E eu continuei. "- Espera, agora vou ler-te uma coisa que um escritor escreveu."
E li a Carta de Saramago à sua Avó.
Perguntei-lhe: "- Notas alguma diferença?"
E ela responde: "- Nada, nadinha. Os dois textos estão lindíssimos!"
E acrescentou:
"-Sabes filha, mas eu não acho que o mundo seja bonito. Como pode ser bonito o mundo com tanta injustiça e com tanto sofrimento? Sabes-me dizer porque é que tudo nos custou tanto a conseguir? Tudo isto tem que ter um propósito e eu sinto, ao olhar para trás e para tantas dificuldades, que tenho a minha missão cumprida. Aliás não fui eu que a cumpri mas sim Deus. Eu apenas permiti ser um instrumento nas mãos d’Ele. Mas tem que haver algo mais do que aquilo que está aos nossos olhos.”
Num outro dia disse-me: “- Deus cuida de uns e de outros manda cuidar.”
Aqui fiquei eu a pensar nestas palavras. Nas palavras desta mulher lutadora que não permitiu que nenhuma dificuldade a fizesse desistir. Não encontro em mais nenhum ser humano esta capacidade. Quando na minha vida o caminho parecia levar-me para o abismo era sempre a força dela, colocada nas suas simples mas vividas palavras que me levantavam mais um pouco.

segunda-feira, julho 04, 2011

mais humor puro e tiradas filosóficas aos 14...


Enquanto saboreava um delicioso croissant e revirava os olhos, deliciado, reflectiu:
"Antes, quando comia, eu ligava apenas ao sabor das coisas, agora, com aqueles programas de televisão `durinhos´, eu aprendi a apreciar a textura também!" (Referia-se aos programas de culinária muito na moda, do género "Master Chef".)

Num dia de muita alegria e excitação:
"Estou tão contente que sinto até as minhas glândulas supra-renais a segregar adrenalina."

A propósito de um membro da família que tem umas orelhas pequeninas:
"Ele não tem orelhas. Tem orifícios auditivos!"

Ao jantar, num belo dia em que estava muito enfastiado por estar de férias e não ter nada para fazer, filosofava assim sobre a escola actual:
" 80% das pessoas são intelectualmente inúteis. (Quando ele disse isto colei à cadeira... Peguei, então, na caneta e no papel, pois já sabia que vinha dali algo atormentado e profundo. Ele riu-se e continuou.) A culpa do mundo estar mal não é desses 80%. A culpa é dos inteligentes. O mundo está mal, porque querem tornar os inúteis inteligentes, isto é, dar-lhes as mesmas oportunidades ou forçá-los a ter as mesmas oportunidades. A ideologia de esquerda é um pouco isto. (Compreendo que esta frase, para muitos, possa chocar. Mas são palavras dele.) As pessoas devem ter as mesmas oportunidades: se conseguirem ter sucesso, conseguiram, se não conseguiram, faz-se TUDO para que consigam. Até os que não querem são obrigados a conseguir, pois se não se tornarem "intelectuais" não valem nada na sociedade. Têm que estar certificados. Mas eles valem, só que não os valorizam. São fisicamente úteis, mas intelectualmente inúteis. Temos aqui dois problemas: 1. eles não querem, mas têm de se tornar "intelectuais" para valerem alguma coisa; 2. mesmo os que não conseguem, são obrigados a conseguir, porque a sociedade não os valoriza de outra forma." (Quando ele começou a enumerar, lembrou-me o Paulo Portas! lolol)

Parece que este miúdo percebe mais de "eduquês" que a maioria dos Ministros da Educação até hoje. E, sem saber (ou até sabendo) resumiu a política do sucesso forjado na educação que foi um cavalo de batalha do anterior governo... E, enquanto mastigava o seu peixe grelhado, foi falando outras coisas de igual forma dignas de registo, mas a minha capacidade para reproduzir não conseguiu acompanhar ou superar a sua capacidade de se exprimir.


terça-feira, junho 28, 2011

humor puro ou tiradas filosóficas... aos 14


A caminho de um fim de semana cinco estrelas:
"Mãe, trouxeste o protector solar? É que ainda tenho a pele imaculada como um duque..."

A caminho do resort cinco estrelas (depois de passar a entrada de um hotel fabuloso) :
"Já chegamos? Eu vejo tanta coisa boa, tanta coisa boa e tu sempre a andar, sempre a andar... Vais-nos meter num barraquinho, não?"

À hora de jantar num requintado restaurante onde imperava a gula e a boa comida:
"Eu acho que o ser humano devia nascer sem paladar. Nós não merecemos ter prazer, senão andamos sempre à procura disto..."

Quando foi atendido soberbamente pela recepcionista do hotel, que disse que teriam muito gosto que ele usasse o spa o tempo que quisesse:
"Viste como a menina regozijava a falar connosco? Isto tudo é um regozijo!!!"

(Que belo presente de final de ano! E bem merecido!)

memórias de uma noite iluminada

video

Noite morna e repleta de luz... Manjerico a perfumar o ar... O som do motor a cruzar as águas calmas do rio e o rio (chamado de Douro) brilhava dourado mais do que nas outras noites.... As pessoas aglomeravam-se nas margens e o espectáculo começou à hora prevista, como acontece todos os anos...
E aconteceu a noite de S. João mais iluminada de sempre, com o fogo no Rio em reflexos e golpes de luz e som a encher os céus da cidade e as almas de pasmo e os sonhos de adolescente e os sonhos de futuro e o riso a soltar-se na garganta e a música a encher a noite e a noite a encher-se de nós e de todos os que desceram o rio para ver o ribombar do fogo em cascata, formando milhões de estrelas cadentes repletas de cores de arco-íris por dentro a explodir por fora em arcos e tochas de luz imensa...

quarta-feira, junho 22, 2011

Carta à avó, por José Saramago

A carta de Saramago à sua avó


"Tens noventa anos. És velha, dolorida. Dizes-me que foste a mais bela rapariga do teu tempo – e eu acredito. Não sabes ler. Tens as mãos grossas e deformadas, os pés encortiçados. Carregaste à cabeça toneladas de restolho e lenha, albufeiras de água. Viste nascer o sol todos os dias. De todo o pão que amassaste se faria um banquete universal. Criaste pessoas e gado, meteste os bácoros na tua própria cama quando o frio ameaçava gelá-los. Contaste-me histórias de aparições e lobisomens, velhas questões de família, um crime de morte. Trave da tua casa, lume da tua lareira – sete vezes engravidaste, sete vezes deste à luz.
Não sabes nada do mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de literatura, nem de filosofia, nem de religião. Herdaste umas centenas de palavras práticas, um vocabulário elementar. Com isto viveste e vais vivendo. És sensível às catástrofes e também aos casos de rua, aos casamentos de princesas e ao roubo dos coelhos da vizinha. Tens grandes ódios por motivos de que já perdeste a lembrança, grandes dedicações que assentam em coisa nenhuma. Vives. Para ti, a palavra Vietname é apenas um som bárbaro que não condiz com o teu círculo de légua e meia de raio. Da fome sabes alguma coisa: já viste uma bandeira negra içada na torre da igreja. (Contaste-me tu, ou terei sonhado que o contavas?) Transportas contigo o teu pequeno casulo de interesses. E, no entanto, tens os olhos claros e és alegre. O teu riso é como um foguete de cores. Como tu, não vi rir ninguém.
Estou diante de ti, e não entendo. Sou da tua carne e do teu sangue, mas não entendo. Vieste a este mundo e não curaste de saber o que é o mundo. Chegas ao fim da vida, e o mundo ainda é, para ti, o que era quando nasceste: uma interrogação, um mistério inacessível, uma coisa que não faz parte da tua herança: quinhentas palavras, um quintal a que em cinco minutos se dá a volta, uma casa de telha-vã e chão de barro. Aperto a tua mão calosa, passo a minha mão pela tua face enrijada e pelos teus cabelos brancos, partidos pelo peso dos carregos – e continuo a não entender. Foste bela, dizes, e bem vejo que és inteligente. Por que foi então que te roubaram o mundo? Mas disto talvez entenda eu, e dir-te-ia o como, o porquê e o quando se soubesse escolher das minhas inumeráveis palavras as que tu pudesses compreender. Já não vale a pena. O mundo continuará sem ti – e sem mim. Não teremos dito um ao outro o que mais importava.
Não teremos realmente? Eu não te terei dado, porque as minhas palavras não são as tuas, o mundo que te era devido. Fico com esta culpa de que me não acusas – e isso ainda é pior. Mas porquê, avó, porque te sentas tu na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabes e por onde nunca viajarás, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e dizes, com a tranquila serenidade dos teus noventa anos e o fogo da tua adolescência nunca perdida: “O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer!”.
É isto que eu não entendo – mas a culpa não é tua".

quarta-feira, junho 01, 2011

Um dia alguém escreveu assim


Na oportunidade de estar aqui
O meu olhar encontra-te
E demora
A olhar-te,
A olhar para ti.

De um lado para o outro,
Percorrendo o teu rosto,
Agarrando-se a cada bocadinho de ti,
Como numa falésia feita do teu rosto
Numa escarpa feita de ti,
O meu olhar agarra-se à tua imagem
Para se prender
E não cair.

Depois procura o teu olhar
Para mostrar que te olha
E ficar a olhar ainda mais um pouco para ti.

Nesta oportunidade de estar aqui
O meu olhar leva consigo
A esperança e a gratidão
De estar contigo.

quarta-feira, maio 25, 2011

Spanish Guitar


"Me gustaria tenerte en mis brazos amor"

Uma simples melodia dedicada a quem já nos teve nos braços e deixou-nos partir ou simplesmente seguiu outra viagem.

terça-feira, maio 24, 2011

sexta-feira, maio 20, 2011

não gosto dele


“Sabe, professora, a Joana gosta de mim. Enviou-me uma carta. Quer namorar comigo. Mas eu não quero…!”, disse baixinho, a sorrir de lado, quando me aproximei da mesa dele. Baixei-me, fingindo estar a conferir o exercício que ele estava a fazer.
“Porquê, João? Não gostas dela? Olha que ela é muito bonita!...”
“Pois é, mas não quero. Viu como ela olhou agora para mim quando se virou para trás?” Miúdo perspicaz… Sim, eu vi, sorriu mais um bocadinho quando se voltou para entregar a borracha à colega e olhou de raspão para o João. Mas o João não devia estar a falar verdade, porque ficou triste de repente.
Dez anitos de paixão intensa. Irrequieto, traquina, brincalhão, inteligente.
“Professora, não gosto que me mexa nas orelhas e no cabelo quando passa por aqui.”, disse enervado.
“E eu não gosto de te mandar calar e de tu continuares na brincadeira.”
Olhou fixamente para mim e disse baixinho: “Sabe, professora, ela não gosta de mim. Eu é que lhe enviei um bilhete ontem e ela respondeu que não queria namorar comigo.” Agora sim, ele falava verdade. Moreno, intensos olhos negros por detrás dos óculos, bonito. E ela morena também, de olhos verdes e cabelos cor de mel. E baixou os olhitos.
“Queres que fale com ela?”, perguntei.
“Vá lá. Diga-lhe que gosto dela… Se ela não me quiser, quero lá saber… Olha, ela é que perde… Vá lá, professora. Diga-lhe que namore comigo… Se ela não quiser… quero lá saber…” Repetiu. E enterrou-se na cadeira, quase a fazer beicinho.
A distracção dele, ultimamente, tinha sido por causa dela. Não passava os exercícios do quadro. Atrasava-se a passar as matérias. Alguns minutos antes rasgara uma folha do caderno. Fui ter com ele e tirei-lha. Mandei-o fazer os exercícios do livro. Depois percebi que deveria querer escrever qualquer coisa para lhe enviar… Fui falar com a Joana.
“Não gosto dele, tenho pena, mas não gosto dele. Ele escreveu-me um bilhete e eu tive de lhe dizer que não queria namorar com ele, porque não gosto dele. Tenho pena dele, mas que posso fazer?” Sorri para dentro, tão nova e já sabia o que custava fazer sofrer alguém... Claro, o que poderia ela fazer senão dizer-lhe a verdade e destroçar-lhe o coração com toda a sinceridade… aos dez anos de idade?

quarta-feira, maio 18, 2011

set fire to the rain



...it felt something died
cause I knew that that was the last time,
the last time...

terça-feira, maio 17, 2011

mudança


...se nas mãos nasce o toque de cada encontro, que prolonga o olhar perdido da paixão, é também nas mãos vazias que se esconde a lágrima de uma rosa que secou.
Faltou a rosa, faltou o calor, faltou a entrega de uma asa a rasgar o céu de infinito e de tempo, faltou a terra a segurar a vida, a vida a segurar o sorriso por dentro e a cor de uma pétala como dantes.

"A melhor forma de fugir à tentação é deixar-se levar por ela.", Oscar Wilde
E a tentação desapareceu.
E as mãos vazias disseram adeus numa palavra de hesitação que ecoou dentro dela mais uma vez. Ela ouviu essa hesitação, ela sentiu que nada seria como foi antes de tudo ter mudado. Ele agora estava diferente e ela compreendeu que tinha de esvaziar a gaveta da memória abafada em salpicos de esperança. Uma gaveta inútil, afinal.
E, de repente, sentiu-se mais livre e mais feliz ao respirar o ar da manhã que lhe enchia as células de vida...
A seguir recebeu uma rosa branca e percebeu que tinha de deixar entrar mais sol pela janela já aberta.

segunda-feira, maio 16, 2011

l'amant



"Et puis il lui avait dit. Il lui avait dit que c'était comme avant, qu'il l'aimait encore, qu'il ne pourrait jamais cesser de l'aimer, qu'il l'aimerait jusqu'à sa mort."

Marguerite Duras

domingo, maio 15, 2011

a linha que nos separa


Passo a correr pela tua casa, não paro, não olho, não quero saber se estás. Corria o risco de te querer ver a sorrir para as nossas memórias e então perderia a força nas pernas da vida. Não quero. Tenho de seguir em frente em direcção ao meu lugar predilecto, aquele onde estou sozinha, encostada à beira-mar de mim, sentada na rocha do meu coração, a ler um bom livro de recordações incrustadas numa música de verão amarelo e intenso.
Releio as linhas do poema que fizeram o nosso último encontro e sublinho a linha que diz “tu e eu”. E separa-nos essa linha. E eu percebo o quanto tenho de caminhar sozinha, percebo o trilho que tenho de fazer pela floresta luxuriante da aridez.
E em casa penteio o cabelo. Em frente ao espelho apreendo a mensagem novamente, lavo o rosto e olho o meu reflexo e há uma nova linha que leio nos meus olhos: uma linha que diz luares e estrelas numa noite de verão em que falaste para fora e eu senti por dentro. Não foi verdade o que disseste. Não aconteceu, como prometeste. E por isso, agora, passo a correr pela tua casa para não me deter no entardecer do vazio.

terça-feira, maio 10, 2011

tu


Hoje amanheci com o sol dentro do peito e entrei pelas palavras a dizer que não, que não queria sorrir, que não queria sentir, que não queria ver-te. Como sempre, ignoraste o que te disse e trouxeste-me o chá da tarde guardado num bule com as recordações de outras tardes, em que sempre me rendi à magia que me arrasta para o teu coração dourado, para o teu abraço apertado, esse abraço onde gosto de ficar no suave calor que conheço.
“O teu abraço é eterno em mim…
Levo-te daqui para onde eu estiver, estás em todo o lado…”
Compreendo a luz nos teus olhos.
Hoje amanheci com essa luz…
E nos mares que nos separam encontramos os horizontes de lua cheia que nos unem.

You know how the time flies
Only yesterday
It was the time of our lives
We were born and raised
In a summer haze
Bound by the surprise
Of our glory days
 (Adele, Someone like you)

sexta-feira, maio 06, 2011

segunda-feira, abril 25, 2011

a varanda


A varanda está agora carregada de vasos e é pequena, estreita e curta.
Quando eu era criança a varanda era alta, espaçosa, tinha três vasos de cada lado e parecia-me suficientemente grande para caberem lá todos os meus personagens imaginários. Num cobertor remendado e gasto, estendia os meus brinquedos: latas velhas que serviam de panelas e tachos, dois bonecos que eram os meus filhos, um carrinho desengonçado que levava os meus filhos a passear ao jardim e eu a dona daquele enorme império que vivia um dia a dia repleto de tarefas interessantíssimas: dar de comer aos filhos, lavá-los, brincar com eles, levá-los a passear e conversar com as amigas que não estavam ali, mas falavam comigo. As férias de Verão eram longas e serviam para tanta coisa... E depois havia o cheiro do jardim, da terra húmida depois de regada, do sol morno na tarde, das rosas da minha mãe e das flores do jardim das vizinhas.
Haviam jardins bonitos. Eu costumava roubar uma rosa do jardim da Dª Maria, quando regressava da escola ao fim da tarde. A única mulher do sítio a quem todos chamavam Dona tinha um enorme casarão e uma fábrica de móveis e pintava as unhas e os lábios de vermelho e tinha o cabelo claro ondulado, carregado de laca. Eu escolhia a rosa mais bonita, quase sempre vermelha, quase sempre a que estava mais longe. E tinha medo de ser apanhada, receava que me ralhassem se me apanhassem a roubar uma flor. Pensava que a Dª Maria estava à espreita do seu casarão por detrás das cortinas. Felizmente, nunca fui apanhada. Depois guardava a rosa até que ela murchasse e ficava com pena que aquela beleza fosse tão fugaz.
A varanda agora é a mesma. A paisagem das casas vizinhas é a mesma. Agora vejo tudo mais alto. Vejo as casas na encosta que antes não via. Há lá umas casas novas. Há uma miséria semelhante.
Agora a varanda parece mais pequena, mas na verdade não é. Os odores nesta tarde de Páscoa tranquila são os mesmos. As rosas continuam no jardim da minha mãe, viçosas e perfumadas. As da Dª Maria desapareceram e o terreno ficou a monte, coberto de mato. O casarão está abandonado e fechado, a fábrica de móveis encerrada, as janelas do edifício têm os vidros partidos e a tinta das paredes desbotada está já a descascar. A riqueza, como as rosas, também pode ser efémera…

sábado, março 26, 2011

o cetim do dia



Escrevo nas linhas da tua pele
a chuva que cai lá fora em gotas grossas de ilusão
e nas linhas da tua pele reencontro a água que secou
e o olhar descobriu o sol que nasceu nos teus olhos
e as cores que inundam as paredes
e nada se repete como esta chuva que lava lá fora…

E dentro do meu quarto renascem no papel
as linhas da tua pele onde escrevo o cetim do dia…

secret



You must know me

I'm one of your secrets
You must know me
I'm one of your secrets
I belong to you
I belong to you
And you belong to me

You must know me
I'm one of your secrets
From what I see
You're trying hard to keep it
Oh yes you are

Well I belong to you
I belong to you
I belong to you
And you belong to me
Look at me
I'm your heart's keeper

Met for 3:21 AM
She will be here
Oh yes she will
And I belong to you
Yes I belong to you
I belong to you
And you belong to me
Look at me
I'm one of your secrets
From what I see
You're trying hard to keep it
Oh yeah


But I belong to you
I belong to you
I belong to you
And you belong to me
You belong to me
You belong to me

Uma canção maravilhosa para uma tarde de chuva!...

terça-feira, março 22, 2011

Shakira - Sale El Sol



Para um amigo especial que gosta muito da Shakira (eu também e de ti!). I'm enchanted to you :)
Beijo

segunda-feira, março 21, 2011

James Morrison - Broken Strings ft. Nelly Furtado



...I try to hold on but it hurts too much
I try to forgive but it's not enough

domingo, março 20, 2011

antes de ti...




Tu vês-me de vez em quando e pensas: lá está ela, altiva e com ar de sereia segura do seu encanto. Pena vê-la tão poucas vezes. E eu vejo-te e penso: lá está ele, nem me vê, nem sabe a cor dos meus olhos, nem sequer a cor do meu casaco. Tu vês-me e pensas: belo casaco cintado que a faz tão perfeita. E eu vejo-te descontraído a tomar café e penso: que olhos verdes tão cristalinos, nem olham para mim. E tu pensas: que olhar profundo e misterioso, parece sempre perdido, a olhar pela janela. Procurará alguém? E eu penso: que sorriso branco e perfeito a sorrir para o lado. Terá alguém? E tu pensas: não vale a pena falar com ela. Ela nem me vê. E eu penso: não vale a pena pensar nele. Ele nem me olha.

Um dia, tu e eu olhamo-nos ao mesmo tempo e fingimos que nunca nos vimos.
Um dia, dizemos um ao outro: por onde andaste todo este tempo? Vi-te em cada amanhecer e, na luz que me ofuscava, via o teu sorriso sem nome. Que caminhos fizeste tu, antes de mim? Que trilhos no mundo traçaste, antes de mim? Que noites de lua cheia abraçaste, antes de mim? O quê, antes de mim?
E diremos um ao outro, então: nada, antes de ti.