terça-feira, julho 26, 2011

Porque rir faz bem - Capítulo I


O Gonçalo é seleccionado pelo colégio para integrar na equipa de futsal de competição.
É obrigatório a ida ao Centro de Medicina Desportiva de Lisboa para obter uma declaração médica a atestar a aptidão física para a practica da modalidade.
Simples? Também achei.
Vou a Internet, procuro o contacto telefónico para marcar a consulta.
Centro de Medicina Desportiva de Lisboa:
Horários - 9h00 às 17h30.
Geral: Nº 123
Marcação de Consultas: Nº 456
Marcação de Exames: Nº 678

Ligo para o geral. Impedido. Tento mais tarde... impedido. Tento mais uma... e mais uma ... e mais uma ... Impedido, Impedido , Impedido !!!

Desisto.

Mudo de número, tento a marcação de consultas. Toca, toca, toca e ... atendem !!

Do outro lado uma voz muito baixa:
- Estou...
- Estou ! (digo eu entusiamada, é desta!!)
- Estou
- É do centro de medicina desportiva de Lisboa ?
- Não minha senhora!
- Não?! Peço desculpa, deve ser engano..
- Não é engano, não
- Não?! (ok, não estou a perceber nada!)
- Não, ligou para o centro de anti dopagem, mas eu ligo para o geral
- Obrigada ... (oh, não! O geral não !!!)

Ao fim de 10 minutos de música, sou atendida.

- ESTOU!!!
- Estou sim, estou a ligar para o Centro de Medicina Desportiva de Lisboa?
- ESTÁ SIM (Aqui é assim, atendemos as pessoas a gritar)
- Pretendia marcar uma consulta para o meu filho frequ... (sou interrompida)
- Já FECHAMOS HOJE!!
- Desculpe?! Mas já fecharam como? O Horário é até às 17h30 e são 17h10...
- SIM, MAS HOJE JÁ FECHAMOS. LIGUE AMANHÃ

TRIM .... Chamada desligada!

Nada de desânimos. Amanhã tenta-se de novo.

Dia seguinte. Recomeça a saga.

Ligo para o geral. Impedido. Tento mais tarde... impedido. Tento mais uma... e mais uma ... e mais uma ... Impedido, Impedido , Impedido !!!

Desta vez não desisto e de repente:

- ESTOU
- Estou sim, bom dia! Estou a ligar para o Centro de Medicina Desportiva de Lisboa? (Ai como eu estou feliz!!! Consegui, consegui, consegui!)
- SIM
- Pretendia marcar uma consulta para o meu fil...
- PARA QUÊ? (Sim, e gritamos todos os dias)
- É la para o colégio. Para praticar Futsal de competição
- NÚMERO DO BILHETE DE IDENTIDADE?
- Não tenho aqui de momento
- DATA DE NASCIMENTO?
- 20 de Setembro de 2002
- QUANDO É QUE QUER A CONSULTA (só faltou dizer, HEIN?)
- Pode ser agora para Agosto, vou estar de férias
- QUAL É O DIA QUE QUER?
- Pode ser para dia 16?
- NÂO!
- Então, quando é que tem vaga?
- DIA 18
- Pode ser. Marque então para dia 18, sff
- A QUE HORAS???
- Uma qualquer! (sim, vamos lá a despachar que isto começa a perder a piada)
- NÃO PODE SER DIA 18! A CRIANÇA TERÁ DE VIR EM SETEMBRO
- Em Setembro?! Mas, nessa altura já precisava de ter o atestado
- NÃO PODE! A CRIANÇA SÓ PODE SER CONSULTADA NO MÊS DO SEU ANIVERSÁRIO

... 1 minuto meu de silêncio, tinhamos o caldo entornado...

- Olhe minha senhora ... desculpa lá?! Mas se a criança só fizer anos em Dezembro é
suposto ela perder 3 meses de competição?!
- Não, eu vou explicar ...( e não é também somos capazes de moderar o tom?! Ah pois!)
- Explique-me lá então!
- É que se a criança só tiver 8 anos deve ser vista no mês do seu aniversário. Assim
vai ter que vir em Agosto e depois tem de voltar em Setembro.
- Então só pode ir a partir de 20 de Setembro, é isso?
- Não, pode vir logo no dia 1 de Setembro.
- Deixe cá ver se eu percebi. Se fôr no dia 18 de Agosto os exames não são válidos,
porque a criança não tem 9 anos. Se os fizer no dia 1 de Setembro e a criança
ainda continuar sem ter 9 anos, estão optimos é isso?
- Sim é isso...
- Muito bem, então vamos no dia 18 de Agosto.
- Esta marcadinha a consulta.
- Obrigada

E ... desligo!!

Perceberam? Pois eu também não.
Valha-me ao menos as gargalhadas que dei a seguir!!

P.S: Até estou com M-E-D-O do que há-de vir no dia 18.

sexta-feira, julho 22, 2011

Pois sim


Pois sim, dizem-me.
Que não posso ser mãe galinha.
Que devia aproveitar o tempo que estou sem o meu pitainho para me divertir.
Para ler e para ir ao cinema!
Pois não.
Nem leio, nem vou ao cinema. É simples, não me apetece.
Falta-me qualquer coisa.
Ou melhor falta-me TUDO.
Se vale a pena sofrer assim ?! Se adianta ?! Pois claro que não!
Quando em tempos tinha estes pensamentos em voz alta, ou quando os liam no meu silêncio, alguém me dizia sempre com carinho:
"Pois não, filha... mas nós não somos feitos, fizeram-nos!"
Ora ai está uma grande verdade!
E é nestas alturas que eu gostava tanto que me tivessem feito de outra forma...

quarta-feira, julho 06, 2011

Momentos com a minha mãe


Tenho a melhor mãe do mundo. Cada dia que passa estou mais convencida disso.
Mas esta mãe é uma doideira pois não consegue parar. Junto dela não há lugar para a preguiça nem para inutilidade nem para a pasmaceira. Tudo tem um propósito e precisa de ser feito. Ela não fica à espera que os outros o façam por ela. Está sempre na frente da fileira das tarefas.
Eu, que ao que parece até sou um bocado parecida com ela nesse aspecto, cheguei lá a casa e senti necessidade de a fazer parar (uma vez mais).
Primeiro tive que ser paciente e escutar os milhares de coisas que tem sempre para me contar. E começa um assunto e vai para outro num ápice e depois volta para contar mais alguma coisa que lhe escapou pois a velocidade por vezes atraiçoa-nos. Tudo isto e sempre a fazer alguma coisa.
Então quando já estava um nadinha mais vazia das histórias que enchem o dia dela deixei-a sentar-se e disse: “- Deixa-me ler-te uma coisa que a tua filha escreveu.”
Abri o blog e li um post da minha querida irmã.
Os olhos dela encheram-se de alegria e orgulho e disse: 'Ela é espectacular. E escreve mesmo muito bem. Não sei porque se admira com o filho. Ele sai a ela!"
E eu continuei. "- Espera, agora vou ler-te uma coisa que um escritor escreveu."
E li a Carta de Saramago à sua Avó.
Perguntei-lhe: "- Notas alguma diferença?"
E ela responde: "- Nada, nadinha. Os dois textos estão lindíssimos!"
E acrescentou:
"-Sabes filha, mas eu não acho que o mundo seja bonito. Como pode ser bonito o mundo com tanta injustiça e com tanto sofrimento? Sabes-me dizer porque é que tudo nos custou tanto a conseguir? Tudo isto tem que ter um propósito e eu sinto, ao olhar para trás e para tantas dificuldades, que tenho a minha missão cumprida. Aliás não fui eu que a cumpri mas sim Deus. Eu apenas permiti ser um instrumento nas mãos d’Ele. Mas tem que haver algo mais do que aquilo que está aos nossos olhos.”
Num outro dia disse-me: “- Deus cuida de uns e de outros manda cuidar.”
Aqui fiquei eu a pensar nestas palavras. Nas palavras desta mulher lutadora que não permitiu que nenhuma dificuldade a fizesse desistir. Não encontro em mais nenhum ser humano esta capacidade. Quando na minha vida o caminho parecia levar-me para o abismo era sempre a força dela, colocada nas suas simples mas vividas palavras que me levantavam mais um pouco.

segunda-feira, julho 04, 2011

mais humor puro e tiradas filosóficas aos 14...


Enquanto saboreava um delicioso croissant e revirava os olhos, deliciado, reflectiu:
"Antes, quando comia, eu ligava apenas ao sabor das coisas, agora, com aqueles programas de televisão `durinhos´, eu aprendi a apreciar a textura também!" (Referia-se aos programas de culinária muito na moda, do género "Master Chef".)

Num dia de muita alegria e excitação:
"Estou tão contente que sinto até as minhas glândulas supra-renais a segregar adrenalina."

A propósito de um membro da família que tem umas orelhas pequeninas:
"Ele não tem orelhas. Tem orifícios auditivos!"

Ao jantar, num belo dia em que estava muito enfastiado por estar de férias e não ter nada para fazer, filosofava assim sobre a escola actual:
" 80% das pessoas são intelectualmente inúteis. (Quando ele disse isto colei à cadeira... Peguei, então, na caneta e no papel, pois já sabia que vinha dali algo atormentado e profundo. Ele riu-se e continuou.) A culpa do mundo estar mal não é desses 80%. A culpa é dos inteligentes. O mundo está mal, porque querem tornar os inúteis inteligentes, isto é, dar-lhes as mesmas oportunidades ou forçá-los a ter as mesmas oportunidades. A ideologia de esquerda é um pouco isto. (Compreendo que esta frase, para muitos, possa chocar. Mas são palavras dele.) As pessoas devem ter as mesmas oportunidades: se conseguirem ter sucesso, conseguiram, se não conseguiram, faz-se TUDO para que consigam. Até os que não querem são obrigados a conseguir, pois se não se tornarem "intelectuais" não valem nada na sociedade. Têm que estar certificados. Mas eles valem, só que não os valorizam. São fisicamente úteis, mas intelectualmente inúteis. Temos aqui dois problemas: 1. eles não querem, mas têm de se tornar "intelectuais" para valerem alguma coisa; 2. mesmo os que não conseguem, são obrigados a conseguir, porque a sociedade não os valoriza de outra forma." (Quando ele começou a enumerar, lembrou-me o Paulo Portas! lolol)

Parece que este miúdo percebe mais de "eduquês" que a maioria dos Ministros da Educação até hoje. E, sem saber (ou até sabendo) resumiu a política do sucesso forjado na educação que foi um cavalo de batalha do anterior governo... E, enquanto mastigava o seu peixe grelhado, foi falando outras coisas de igual forma dignas de registo, mas a minha capacidade para reproduzir não conseguiu acompanhar ou superar a sua capacidade de se exprimir.


terça-feira, junho 28, 2011

humor puro ou tiradas filosóficas... aos 14


A caminho de um fim de semana cinco estrelas:
"Mãe, trouxeste o protector solar? É que ainda tenho a pele imaculada como um duque..."

A caminho do resort cinco estrelas (depois de passar a entrada de um hotel fabuloso) :
"Já chegamos? Eu vejo tanta coisa boa, tanta coisa boa e tu sempre a andar, sempre a andar... Vais-nos meter num barraquinho, não?"

À hora de jantar num requintado restaurante onde imperava a gula e a boa comida:
"Eu acho que o ser humano devia nascer sem paladar. Nós não merecemos ter prazer, senão andamos sempre à procura disto..."

Quando foi atendido soberbamente pela recepcionista do hotel, que disse que teriam muito gosto que ele usasse o spa o tempo que quisesse:
"Viste como a menina regozijava a falar connosco? Isto tudo é um regozijo!!!"

(Que belo presente de final de ano! E bem merecido!)

memórias de uma noite iluminada


Noite morna e repleta de luz... Manjerico a perfumar o ar... O som do motor a cruzar as águas calmas do rio e o rio (chamado de Douro) brilhava dourado mais do que nas outras noites.... As pessoas aglomeravam-se nas margens e o espectáculo começou à hora prevista, como acontece todos os anos...
E aconteceu a noite de S. João mais iluminada de sempre, com o fogo no Rio em reflexos e golpes de luz e som a encher os céus da cidade e as almas de pasmo e os sonhos de adolescente e os sonhos de futuro e o riso a soltar-se na garganta e a música a encher a noite e a noite a encher-se de nós e de todos os que desceram o rio para ver o ribombar do fogo em cascata, formando milhões de estrelas cadentes repletas de cores de arco-íris por dentro a explodir por fora em arcos e tochas de luz imensa...

quarta-feira, junho 22, 2011

Carta à avó, por José Saramago

A carta de Saramago à sua avó


"Tens noventa anos. És velha, dolorida. Dizes-me que foste a mais bela rapariga do teu tempo – e eu acredito. Não sabes ler. Tens as mãos grossas e deformadas, os pés encortiçados. Carregaste à cabeça toneladas de restolho e lenha, albufeiras de água. Viste nascer o sol todos os dias. De todo o pão que amassaste se faria um banquete universal. Criaste pessoas e gado, meteste os bácoros na tua própria cama quando o frio ameaçava gelá-los. Contaste-me histórias de aparições e lobisomens, velhas questões de família, um crime de morte. Trave da tua casa, lume da tua lareira – sete vezes engravidaste, sete vezes deste à luz.
Não sabes nada do mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de literatura, nem de filosofia, nem de religião. Herdaste umas centenas de palavras práticas, um vocabulário elementar. Com isto viveste e vais vivendo. És sensível às catástrofes e também aos casos de rua, aos casamentos de princesas e ao roubo dos coelhos da vizinha. Tens grandes ódios por motivos de que já perdeste a lembrança, grandes dedicações que assentam em coisa nenhuma. Vives. Para ti, a palavra Vietname é apenas um som bárbaro que não condiz com o teu círculo de légua e meia de raio. Da fome sabes alguma coisa: já viste uma bandeira negra içada na torre da igreja. (Contaste-me tu, ou terei sonhado que o contavas?) Transportas contigo o teu pequeno casulo de interesses. E, no entanto, tens os olhos claros e és alegre. O teu riso é como um foguete de cores. Como tu, não vi rir ninguém.
Estou diante de ti, e não entendo. Sou da tua carne e do teu sangue, mas não entendo. Vieste a este mundo e não curaste de saber o que é o mundo. Chegas ao fim da vida, e o mundo ainda é, para ti, o que era quando nasceste: uma interrogação, um mistério inacessível, uma coisa que não faz parte da tua herança: quinhentas palavras, um quintal a que em cinco minutos se dá a volta, uma casa de telha-vã e chão de barro. Aperto a tua mão calosa, passo a minha mão pela tua face enrijada e pelos teus cabelos brancos, partidos pelo peso dos carregos – e continuo a não entender. Foste bela, dizes, e bem vejo que és inteligente. Por que foi então que te roubaram o mundo? Mas disto talvez entenda eu, e dir-te-ia o como, o porquê e o quando se soubesse escolher das minhas inumeráveis palavras as que tu pudesses compreender. Já não vale a pena. O mundo continuará sem ti – e sem mim. Não teremos dito um ao outro o que mais importava.
Não teremos realmente? Eu não te terei dado, porque as minhas palavras não são as tuas, o mundo que te era devido. Fico com esta culpa de que me não acusas – e isso ainda é pior. Mas porquê, avó, porque te sentas tu na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabes e por onde nunca viajarás, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e dizes, com a tranquila serenidade dos teus noventa anos e o fogo da tua adolescência nunca perdida: “O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer!”.
É isto que eu não entendo – mas a culpa não é tua".

quarta-feira, junho 01, 2011

Um dia alguém escreveu assim


Na oportunidade de estar aqui
O meu olhar encontra-te
E demora
A olhar-te,
A olhar para ti.

De um lado para o outro,
Percorrendo o teu rosto,
Agarrando-se a cada bocadinho de ti,
Como numa falésia feita do teu rosto
Numa escarpa feita de ti,
O meu olhar agarra-se à tua imagem
Para se prender
E não cair.

Depois procura o teu olhar
Para mostrar que te olha
E ficar a olhar ainda mais um pouco para ti.

Nesta oportunidade de estar aqui
O meu olhar leva consigo
A esperança e a gratidão
De estar contigo.

quarta-feira, maio 25, 2011

Spanish Guitar


"Me gustaria tenerte en mis brazos amor"

Uma simples melodia dedicada a quem já nos teve nos braços e deixou-nos partir ou simplesmente seguiu outra viagem.

terça-feira, maio 24, 2011

sexta-feira, maio 20, 2011

não gosto dele


“Sabe, professora, a Joana gosta de mim. Enviou-me uma carta. Quer namorar comigo. Mas eu não quero…!”, disse baixinho, a sorrir de lado, quando me aproximei da mesa dele. Baixei-me, fingindo estar a conferir o exercício que ele estava a fazer.
“Porquê, João? Não gostas dela? Olha que ela é muito bonita!...”
“Pois é, mas não quero. Viu como ela olhou agora para mim quando se virou para trás?” Miúdo perspicaz… Sim, eu vi, sorriu mais um bocadinho quando se voltou para entregar a borracha à colega e olhou de raspão para o João. Mas o João não devia estar a falar verdade, porque ficou triste de repente.
Dez anitos de paixão intensa. Irrequieto, traquina, brincalhão, inteligente.
“Professora, não gosto que me mexa nas orelhas e no cabelo quando passa por aqui.”, disse enervado.
“E eu não gosto de te mandar calar e de tu continuares na brincadeira.”
Olhou fixamente para mim e disse baixinho: “Sabe, professora, ela não gosta de mim. Eu é que lhe enviei um bilhete ontem e ela respondeu que não queria namorar comigo.” Agora sim, ele falava verdade. Moreno, intensos olhos negros por detrás dos óculos, bonito. E ela morena também, de olhos verdes e cabelos cor de mel. E baixou os olhitos.
“Queres que fale com ela?”, perguntei.
“Vá lá. Diga-lhe que gosto dela… Se ela não me quiser, quero lá saber… Olha, ela é que perde… Vá lá, professora. Diga-lhe que namore comigo… Se ela não quiser… quero lá saber…” Repetiu. E enterrou-se na cadeira, quase a fazer beicinho.
A distracção dele, ultimamente, tinha sido por causa dela. Não passava os exercícios do quadro. Atrasava-se a passar as matérias. Alguns minutos antes rasgara uma folha do caderno. Fui ter com ele e tirei-lha. Mandei-o fazer os exercícios do livro. Depois percebi que deveria querer escrever qualquer coisa para lhe enviar… Fui falar com a Joana.
“Não gosto dele, tenho pena, mas não gosto dele. Ele escreveu-me um bilhete e eu tive de lhe dizer que não queria namorar com ele, porque não gosto dele. Tenho pena dele, mas que posso fazer?” Sorri para dentro, tão nova e já sabia o que custava fazer sofrer alguém... Claro, o que poderia ela fazer senão dizer-lhe a verdade e destroçar-lhe o coração com toda a sinceridade… aos dez anos de idade?

quarta-feira, maio 18, 2011

set fire to the rain



...it felt something died
cause I knew that that was the last time,
the last time...

terça-feira, maio 17, 2011

mudança


...se nas mãos nasce o toque de cada encontro, que prolonga o olhar perdido da paixão, é também nas mãos vazias que se esconde a lágrima de uma rosa que secou.
Faltou a rosa, faltou o calor, faltou a entrega de uma asa a rasgar o céu de infinito e de tempo, faltou a terra a segurar a vida, a vida a segurar o sorriso por dentro e a cor de uma pétala como dantes.

"A melhor forma de fugir à tentação é deixar-se levar por ela.", Oscar Wilde
E a tentação desapareceu.
E as mãos vazias disseram adeus numa palavra de hesitação que ecoou dentro dela mais uma vez. Ela ouviu essa hesitação, ela sentiu que nada seria como foi antes de tudo ter mudado. Ele agora estava diferente e ela compreendeu que tinha de esvaziar a gaveta da memória abafada em salpicos de esperança. Uma gaveta inútil, afinal.
E, de repente, sentiu-se mais livre e mais feliz ao respirar o ar da manhã que lhe enchia as células de vida...
A seguir recebeu uma rosa branca e percebeu que tinha de deixar entrar mais sol pela janela já aberta.

segunda-feira, maio 16, 2011

l'amant



"Et puis il lui avait dit. Il lui avait dit que c'était comme avant, qu'il l'aimait encore, qu'il ne pourrait jamais cesser de l'aimer, qu'il l'aimerait jusqu'à sa mort."

Marguerite Duras

domingo, maio 15, 2011

a linha que nos separa


Passo a correr pela tua casa, não paro, não olho, não quero saber se estás. Corria o risco de te querer ver a sorrir para as nossas memórias e então perderia a força nas pernas da vida. Não quero. Tenho de seguir em frente em direcção ao meu lugar predilecto, aquele onde estou sozinha, encostada à beira-mar de mim, sentada na rocha do meu coração, a ler um bom livro de recordações incrustadas numa música de verão amarelo e intenso.
Releio as linhas do poema que fizeram o nosso último encontro e sublinho a linha que diz “tu e eu”. E separa-nos essa linha. E eu percebo o quanto tenho de caminhar sozinha, percebo o trilho que tenho de fazer pela floresta luxuriante da aridez.
E em casa penteio o cabelo. Em frente ao espelho apreendo a mensagem novamente, lavo o rosto e olho o meu reflexo e há uma nova linha que leio nos meus olhos: uma linha que diz luares e estrelas numa noite de verão em que falaste para fora e eu senti por dentro. Não foi verdade o que disseste. Não aconteceu, como prometeste. E por isso, agora, passo a correr pela tua casa para não me deter no entardecer do vazio.

terça-feira, maio 10, 2011

tu


Hoje amanheci com o sol dentro do peito e entrei pelas palavras a dizer que não, que não queria sorrir, que não queria sentir, que não queria ver-te. Como sempre, ignoraste o que te disse e trouxeste-me o chá da tarde guardado num bule com as recordações de outras tardes, em que sempre me rendi à magia que me arrasta para o teu coração dourado, para o teu abraço apertado, esse abraço onde gosto de ficar no suave calor que conheço.
“O teu abraço é eterno em mim…
Levo-te daqui para onde eu estiver, estás em todo o lado…”
Compreendo a luz nos teus olhos.
Hoje amanheci com essa luz…
E nos mares que nos separam encontramos os horizontes de lua cheia que nos unem.

You know how the time flies
Only yesterday
It was the time of our lives
We were born and raised
In a summer haze
Bound by the surprise
Of our glory days
 (Adele, Someone like you)

sexta-feira, maio 06, 2011

segunda-feira, abril 25, 2011

a varanda


A varanda está agora carregada de vasos e é pequena, estreita e curta.
Quando eu era criança a varanda era alta, espaçosa, tinha três vasos de cada lado e parecia-me suficientemente grande para caberem lá todos os meus personagens imaginários. Num cobertor remendado e gasto, estendia os meus brinquedos: latas velhas que serviam de panelas e tachos, dois bonecos que eram os meus filhos, um carrinho desengonçado que levava os meus filhos a passear ao jardim e eu a dona daquele enorme império que vivia um dia a dia repleto de tarefas interessantíssimas: dar de comer aos filhos, lavá-los, brincar com eles, levá-los a passear e conversar com as amigas que não estavam ali, mas falavam comigo. As férias de Verão eram longas e serviam para tanta coisa... E depois havia o cheiro do jardim, da terra húmida depois de regada, do sol morno na tarde, das rosas da minha mãe e das flores do jardim das vizinhas.
Haviam jardins bonitos. Eu costumava roubar uma rosa do jardim da Dª Maria, quando regressava da escola ao fim da tarde. A única mulher do sítio a quem todos chamavam Dona tinha um enorme casarão e uma fábrica de móveis e pintava as unhas e os lábios de vermelho e tinha o cabelo claro ondulado, carregado de laca. Eu escolhia a rosa mais bonita, quase sempre vermelha, quase sempre a que estava mais longe. E tinha medo de ser apanhada, receava que me ralhassem se me apanhassem a roubar uma flor. Pensava que a Dª Maria estava à espreita do seu casarão por detrás das cortinas. Felizmente, nunca fui apanhada. Depois guardava a rosa até que ela murchasse e ficava com pena que aquela beleza fosse tão fugaz.
A varanda agora é a mesma. A paisagem das casas vizinhas é a mesma. Agora vejo tudo mais alto. Vejo as casas na encosta que antes não via. Há lá umas casas novas. Há uma miséria semelhante.
Agora a varanda parece mais pequena, mas na verdade não é. Os odores nesta tarde de Páscoa tranquila são os mesmos. As rosas continuam no jardim da minha mãe, viçosas e perfumadas. As da Dª Maria desapareceram e o terreno ficou a monte, coberto de mato. O casarão está abandonado e fechado, a fábrica de móveis encerrada, as janelas do edifício têm os vidros partidos e a tinta das paredes desbotada está já a descascar. A riqueza, como as rosas, também pode ser efémera…

sábado, março 26, 2011

o cetim do dia



Escrevo nas linhas da tua pele
a chuva que cai lá fora em gotas grossas de ilusão
e nas linhas da tua pele reencontro a água que secou
e o olhar descobriu o sol que nasceu nos teus olhos
e as cores que inundam as paredes
e nada se repete como esta chuva que lava lá fora…

E dentro do meu quarto renascem no papel
as linhas da tua pele onde escrevo o cetim do dia…

secret



You must know me

I'm one of your secrets
You must know me
I'm one of your secrets
I belong to you
I belong to you
And you belong to me

You must know me
I'm one of your secrets
From what I see
You're trying hard to keep it
Oh yes you are

Well I belong to you
I belong to you
I belong to you
And you belong to me
Look at me
I'm your heart's keeper

Met for 3:21 AM
She will be here
Oh yes she will
And I belong to you
Yes I belong to you
I belong to you
And you belong to me
Look at me
I'm one of your secrets
From what I see
You're trying hard to keep it
Oh yeah


But I belong to you
I belong to you
I belong to you
And you belong to me
You belong to me
You belong to me

Uma canção maravilhosa para uma tarde de chuva!...